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A LIÇÃO DE DOR DO CACO DE VIDRO ESPETADO NO PÉ

O Eu menino era danado que só ele. Tinha na época pouco mais de 9 anos de idade e andava espiando, pelo buraco do muro, o corpo nu da vizinha, que, todo final de tarde, banhava-se com cabaça e água fria, trepada na boca do poço artesiano. Puxava água na bomba de mão, alimentava a cabaça de água fresca e fartava-se, com gosto de pele jovem no cio. Margarida era o seu nome. Tinha 20 e poucos anos e olhos negros, iguais a jabuticabas. Magrela, cabelos curtos, à la Rita Pavone. Quando andava na rua, empinava a bunda além da conta. Sabia e não sabia que estava sendo brechada pelo buraco do muro e parecia gostar do modal da sedução. Sonhava em um dia ser atriz, morar em Copacabana e ser mais famosa que a estrela Florinda Bolkan, que nasceu em Uruburetama, interior do Ceará, morou em Fortaleza e no Rio de Janeiro, antes de se mudar para a Itália, em 1968, e fazer carreira de sucesso no cinema. O buraco no muro era miúdo, e nele cabia um olho por vez. Justo! Com o tempo, a “performance” da estrela do poço ganhou música, dança, rebolado e pecados provocativos. Amor festivo! Numa tarde de calor dos infernos, com o dedo apontando para o buraco quente, convocou-me, finalmente. E eu fui. O coração disparado e o sangue da danação, fervendo feito brasa. Subi no muro de pronto, com a ajuda de um tambor velho de querosene. Pulei, velozmente, para o outro lado do muro, e, de sorte, caí de todo no minado alçapão de zinco. Gritei de dor. Um caco de vidro, dos grandes, enfiou-se no meu pé direito. Sangue. Muito. Margarida gritava junto, de deboche e satisfação. “Te peguei!”, gritou. Pulei o muro de volta e corri, em fuga, até a minha mãe Nilce, que pedalava velozmente, no terraço da casa, a sua barulhenta máquina de costura Singer. “Santo Deus! O que aconteceu?” “Furei o pé com um caco de vidro!” Papai Luiz, que havia acabado de chegar do trabalho, perguntou-me: “Onde foi a danação desta vez?” Silêncio. Papai Luiz sabia e não sabia que eu andava espiando o banho da vizinha dos fundos, pelo buraco do muro. Mamãe Nilce tentou tirar o caco de vidro do meu pé, mas papai Luiz interveio: “Não. Agora não! Espera um pouco. Ele precisa saber o que é a dor.” Mamãe Nilce esperou uma eternidade. Doeu e muito, quando, do nada, puxou de jeito o imenso caco de vidro do meu pé e, com ele, no algodão ensanguentado carregou os segredos da moça do poço artesiano, que lembrava Rita Pavone e sonhava em ser Florinda Bolkan. Nunca mais soube de Margarida, a estrela do buraco quente. Escafedeu-se! O buraco foi fechado. Quem teria feito isso? A lição da dor ficou cunhada – para sempre – na minha poesia de reminiscências, nos versos do poço artesiano, nas palavras da bomba de mão de puxar água fresca, na dor do caco de vidro espetado no pé e nas águas de cabaça, da Fortaleza hilária, dos anos 1960.

26.03.2022