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DOIS RELÓGIOS DE PULSO E O SINEIRO DO COLÉGIO CEARENSE

Eu e as minhas manias! Todas da vez! Quando menino - isso na Fortaleza dos anos de 1970 e 1971 - aluno do Colégio Cearense, dos Irmãos Maristas, fui “convocado” para ser o novo sineiro do colégio. “Eu?”. “Sim. Você mesmo!”. Já cuidava do hasteamento da bandeira nacional, em dias da Pátria e em dias de eventos festivos. Uma honra! Dobrava e desdobrava a bandeira, com a “propriedade” de um escoteiro: sempre alerta! Aceitei. Missão: substituir o “pinguelão” do Torres, campeão de Speed Ball do colégio. “Você é alto, forte, mora perto do colégio e ninguém - de cabeça ajuizada - vai mexer com você.”. Palavras proféticas do Irmão Luiz Marques, diretor do colégio. "Quantas badaladas de sino por dia?". Quis saber, por nada. “Dez badaladas, no máximo.”. Cheguei em casa - babando ovo - e anunciei a boa-nova: “Vou ser o novo sineiro do Colégio Cearense!”. Mamãe Nilce engoliu seco e arregalou os olhos: “O que você aprontou desta vez? Isso está me parecendo um castigo!”. “Nada. Juro. E vou precisar de um relógio novo. Marca boa, de precisão suíça.”. “Isso não é comigo. É com o seu pai. Cadê o relógio Seiko que você ganhou de aniversário?”. “Quebrou”. Menti. No meu primeiro dia de sineiro, usei dois relógios. O Seiko - de vidro trincado - e o Cássio, novíssimo em folha. Um em cada pulso. Irmão Luiz Marques viu aquilo e perguntou: “Dois relógios?”. “Sim. Pontualidade é tudo.”. Desconfiado, alertou-me: “Não vai aprontar! E os sapatos?”. “O que têm eles?”. “Que marmota é esta: um sapato preto e o outro marrom?”. “É que eu sou daltônico. Quando fico nervoso troco as cores.”. “Você está nervoso agora?”. “Depende.”. “Depende de quê. Posso saber?”. “Da mania da vez.”. “E não estão zoando com você?”. “Não mais. Já resolvi o assunto.”. “Posso saber o que você fez?”. “Nada. Dei um susto nele com uma faca. Nem sangue saiu.” Durante os anos de 1970 e 1971, fui o sineiro oficial do Colégio Cearense, usando dois relógios - um em cada pulso - e sapatos Vulcabrás, um preto e outro marrom. Fui descobrir que era daltônico - de verdade - em 1976, no serviço militar obrigatório, já morando na cidade de São Paulo. De volta à cidade de Fortaleza, nas férias de julho de 1972, visitei o Colégio Cearense e reencontrei, no pátio, o Irmão Luiz Marques. “Você, aqui?” “Sim. Estou de férias.”. “Vejo que você está mudado: não usa mais dois relógios e nem sapatos trocados! Parabéns!”. “É que eu mudei de mania!”. Irmão Luiz Marques estudou-me - demoradamente – e, então, mordeu o anzol: “E qual é a mania da vez?”. “Depende”. “Depende do quê?”. “Melhor eu não dizer. O senhor não vai gostar - nadinha - da história.”. “Mania carnal ou venial?”, insistiu. “Depende.”. “Depende de quê?”. “Da mania da vez. Quando fico nervoso troco coisas!”. Fiquei 10 anos sem retornar ao Ceará. Exílio voluntário. É dessa época o livro "Na linha do cerol: reminiscências poéticas". Durante esse tempo, fiquei sabendo que o Irmão Luiz Marques largou a batina e se casou. E o Colégio Cearense - até então masculino - passou a ser misto. Hoje não existe mais. Infelizmente, fechou. Vive da lembrança de ex-alunos e... da mania da vez.

13.01.2022