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TESAUROS E MUITO CUSPE NA CARA DO PAI DOS BURROS

“João, você é um tesauro!” “Eu?” “Sim, você.” Antes de sorrir - de aceitar o agrado do amigo poeta, da cidade de Varginha, Minas Gerais - ou de fazer cara feia, negar, repelir e partir para o “pau”, optei por consultar o dicionário - no “pai dos burros” - o significado da palavra “tesauro”. Tesauro? “Sim. Você é um ‘tesauro’ do mundo dos livros”. Justificou. A palavra “tesauro” - depois de lá espiar - é derivada do neolatim - versão de latim estabelecida por estudiosos do fim da Idade Média, utilizado para fins científicos -, que, por sua vez, é derivada do latim “thesaurus”, que é a latinização do grego “tesouro”, “tesouraria”, “armazém,” também conhecido como “dicionário de ideias afins”. Uma lista de palavras com significados “semelhantes”, em um domínio específico de conhecimento. Por definição, “tesauro” não deve ser encarado simplesmente como uma lista de sinônimos. Mais do que isso e longe disso. O objetivo de um tesauro - dicionário de ideias - é mostrar as diferenças mínimas - os detalhes - entre as palavras e ajudar o escritor a escolher a palavra exata. Interessante. Feito isso - depois de consultar o “pai dos burros” e de saber o significado da palavra “tesauro” - de ser ou não ser, eis a questão, e de “me-abduzir-me” com o elogio do vate, abri um tímido e leve sorriso. Acontece! Ninguém é de ferro - sempre! Até os poetas sangram. Conheço uma história - verdadeira, eu estava lá - de um político, metido a intelectual, que cuspia ao falar, daqueles que adoram fazer citações e pronunciar palavras difíceis, metido a erudito, que - num fervoroso discurso de lançamento de livro – chamou um advogado-poeta, autor da Scortecci, de lúcido, inteligente e um verdadeiro “biblioclasta”. Dois ou três presentes na plateia - minoria absoluta – balançaram a cabeça. A maioria o aplaudiu, fervorosamente. “Biblioclasta” significa aquele que destrói ou não respeita os livros. Depois do fervoroso discurso - e de duas ou três cusparadas na cara -, o nobre político perguntou-me: “E aí, gostou das justas palavras ao nobre vate, filho ilustre desta amada terra?” “Sim, muito. Acho que você até foi ‘simplório’, nos seus eloquentes elogios.” “Fui?” “Foi. Faltou também chamá-lo de um verdadeiro ‘bibliocleptomaníaco". “Posso anotar?” foi o que ele me pediu, tirando do bolso papel e caneta. “Pode”, respondi. “O que significa mesmo ‘bibliocleptomaníaco’?” No ser ou não ser e até no talvez da hora, expliquei: “Um maníaco por livros”, o que não deixa de ser uma “clasta” verdade. Ser um “tesauro” do mundo dos livros não é fácil. Até os poetas - insensíveis - vez por outra - sangram.

07.11.2021