“ENSEBADOS” DO MESSIAS, DEUSA DAS PALAVRAS: ETHYMON E A BIENAL DO LIVRO

Dos ensebados! Eu, Ézio Grassi Peludo e Luiz Caldas Tibiriçá - no início dos anos 80 - fomos visitar o Sebo do Messias, na Praça João Mendes, no centro de São Paulo. “Professor Ézio, o que estamos procurando?” Perguntei. “Algo mais antigo do que nós!” Sei. Olha o que encontrei: Uma edição do “Quintanares” do alegretense Mário Quintana. “Qual o ano da publicação?” Indagou. Ano de 1976, 1ª edição, Editora do Globo, respondi. “Não serve! Ensebado - raro e de valor - tem que ser mais velho do que nós!” Tibiriçá - que nos observava, justificou: “Scortecci, edições de 1920 pra baixo!” Certo, respondi. Ézio nos olhou, sorriu e foi conversar com “Camões” que nos chamava no aglomerado português. “Camões?” Tibiriçá, sorriu. Passamos o resto do dia no “ensebado” do Messias. “Quero morrer aqui!” Palavras de Tibiriçá. “Nós também!” Comprei no sebo do Messias duas raridades, ambas mais velhas do que eu: Quintana e Guilherme de Almeida. Tibiriça, um livro sobre “Bartira” índia tupiniquim paulista do século XVI, filha do cacique Tibiriçá (seu tataravô) e Ézio, um livro sobre Ethymon, deusa grega, mãe de todas as palavras. Conheci Ethymon - a deusa grega - no ano da graça de 1982, quando inaugurei a Scortecci, na Galeria Pinheiros. Quem nos apresentou foi o Ézio. Perguntou: “você quer conhecer Ethymon, a Deusa da Etimologia, mãe da origem das palavras?” Quero. Respondi. Ethymon - já na sua quinta reencarnação - vivia no corpo de uma belíssima jovem índia, na cidade de Cananéia, no litoral paulista. Veio me visitar “enlaçada de amor” com o indianista Luiz Caldas Tibiriçá, autor do célebre dicionário Tupi-Português. Passamos “alguns séculos” conversando sobre a origem das palavras. Depois veio um silêncio e o adeus. Voltou para Cananéia. Ethymon morreu jovem, no ano de 2006, no mesmo dia do passamento do Mestre Tibiriçá. Em 1994, ano da última bienal do livro no Ibirapuera, um grupo de moças - sabendo que éramos escritores - pediu-nos autógrafos. Professor Ézio, que sempre carregava no bolso da camisa duas esferográficas sacou uma e gentilmente perguntou: “Moça, onde você quer o autógrafo?” Esperávamos que ela nos apresentasse um livro, um caderno escolar ou mesmo uma folha avulsa de papel. Que nada! A moça - morena, 15 anos de idade, talvez 16 - desabotoou sua blusa - não usava sutiã - e nos disse: “Aqui!” Apontando com o indicador para o seu peito esquerdo. Ézio tentou - delicadamente - escrever um verso “caracol” no peito da moça tocando-o, apenas, com a ponta da esferográfica. Não conseguiu. Outra moça do grupo, então, sugeriu: “Segura no bico que vai!” Ézio - prontamente - segurou o bico excitado do peito da moça e poetou um poema concreto. Assinou e pontuou versos crassos, do seu único e melhor poema carnal. Perguntei, então: “Ézio, você está gostando da Bienal do Livro?” “Muito! Muito!” Respondeu. Quintana, que nos acompanhava - desde o Sebo do Messias – profetizou o derradeiro verso: “Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo!”

27.02.2021