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A CONCISÃO EXPRESSIVA DE JOÃO SCORTECCI – PARTE 1 / FÁBIO LUCAS

Livro: Lições de Literatura Nordestina / Fundação Casa de Jorge Amado. Sobre a obra poética: Luanda - Uma bailarina morta, de João Scortecci.

Autor de sete coletâneas de poemas e participante de duas coautorias, João Scortecci, apresenta-nos agora Luanda, uma Bailarina Morta (1992).  São dezessete poemas curtos, em que o fino lirismo se estrutura em torno do que se chamaria uma trajetória dramática. 

A qualidade literária do poeta aqui se estratifica. Os valores substantivos predominam, não permitem o despontar dos ornamentos secundários ou de meras qualificações intensificadoras. 

Contam-se nos dedos os adjetivos a circular nesta caminhada. Às vezes, a contenção é tal que não somente se exilam os qualificativos: também desaparecem os verbos. As palavras, ao mesmo tempo, escondem e revelam circunstâncias temporais e descrições de movimento. O poeta se limita a traçar o retábulo no qual verdade e ação se tornam implícitas, lembrando a velha concepção poética do classicismo, em que a poesia se irmanava à pintura e, não, à música. Dizia-se, então ser a poesia um quadro que fala, enquanto a pintura seria poesia muda. 

Seja exemplo do despojamento de verbos e adjetivos o poema 5: 

Angústia

na travessia do vidro de ossos

com o corpo. 

Luanda na delicadeza do sofrimento.    

A "dramatis personae" do Luanda, uma bailarina morta se define num só contexto celestial, como se vê do poema 13:

Luanda

assim é a Lua e o Sol

no céu

de Luanda.

Estrela que arde e chora no palco.

O derradeiro verso, “Estrela que arde e chora no palco” tem a concisão de uma epígrafe e encerra a tensão antitética de um oxímoro, pois a estrela se põe a arder e chorar. 

O poeta ousou descrever o destino de sua musa em palavras/cofres, que encerram enigmas e expressões de amor e perda, como se o conjunto fizesse um canto guiado. Há uma atmosfera de trobar clus, do jogo de revelar escondendo, de tal sorte que o poema permanece inacessível aos profanos. Talvez breve margem de hermetismo. 

Mas há um encanto nesta atmosfera de armação de signos poéticos num “enredo” nebuloso. Veja-se o poema 12: 

Gaiolas nuas

para não esquecer.

Pêndulo do relógio da torre

horas nuas para a liberdade.

João Scortecci conquista, assim, o altiplano de sua produção poética, em versos e poemas comedidos, organizados numa unidade temática. Logra transmitir ao leitor um laconismo expressivo, jamais piegas ou destemperadamente loquaz. 

Prof. Fábio Lucas