Vovô João Batista de Paula e o Abrigo Central

Meu avô paterno, João Batista de Paula, o Batista da Light, morreu em fevereiro de 1968. Eu tinha 12 anos, incompletos. Era seu neto preferido, segundo minha mãe Nilce. Até hoje estamos ligados em pensamento - saudade imensa - e espiritualmente. A nossa história começou em 1962 quando ele me levou pela primeira vez para conhecer o Abrigo Central, no centro de Fortaleza, no coração da Praça do Ferreira, símbolo da cidade cearense.
O Abrigo Central, centro de convivência que abrigava pessoas que esperavam ônibus, uma pequena rodoviária, foi construído em 1949 e demolido em 1967, com a alegação de que estava ruindo e representava um perigo. Eu e meu avô Batista tomando café preto, sem açúcar, no Abrigo Central é a mais forte lembrança que tenho dele. Fomos a pé, da Av. D. Manoel 1086, onde morávamos, até o centro, na Praça do Ferreira. Uma boa caminhada. Eu tinha 6 anos de idade, ainda usava bermudas e dava os meus primeiros passos de independência.
Meu avô, já aposentado, ex-superintendente da Light, vestia-se com elegância e seus ternos de linho branco eram marca registrada. Brincavam, na época, que tinha apenas um único terno branco de linho. Batista qual o segredo: como você faz para ficar sempre alinhado e elegante? Puto da vida, respondia: Fico pelado enquanto tua mãe lava, seca e passa! Carregava pendurado no braço esquerdo - mesmo em dias de sol - o seu inseparável e clássico, guarda-chuvas.
Batista (era assim que gostava de ser chamado) era um contador de "causos". Suas histórias eram engraçadas e divertidas. Adorava contar histórias de mulheres. Seu repertório feminino era grande. Tinha de tudo: putas, vadias, vigaristas, tias, donzelas, raparigas, moças de família e santas. Naquele dia inesquecível da minha primeira visita ao Abrigo Central o lugar estava lotado de gente. Sempre assim vovô? Sempre, respondeu. O calor era sufocante e um cafezinho propunha refrescar o corpo. Foi o que ele me disse. Meu avô pediu dois cafés pretos, sem açúcar. Eu que até então só tomava leite morno, me vi encrencado. Ele bebeu quente, de um só gole. Eu esfriei o meu, assoprando para não queimar a língua. Naquele dia meu avô encontrou amigos, contou piadas e "bolinou" moças que passavam pela praça. Cumprimentava todas, sem exceção, com um delicioso tapinha no bumbum. Minha sobrinha, dizia. Elas sorriam. Hoje, se fizesse isso, seria linchado em praça pública e processado por assédio sexual. Um safado, segundo minha mãe. Seu avô adora um "rabo" de saia, justificava.
No caminho de volta para casa parávamos para comprar pão e queijo. Zé, dizia ele, quero um quilo de queijo sem buracos! A brincadeira era a mesma de sempre. Pedia em voz alta - em busca de atenção alheia - e piscava o olho para mim. Zé sorria e respondia: - Pode deixar seu Batista. Um quilo sem buraco bem pesado! A minha inocência durou anos até entender que era uma deliciosa brincadeira. No meu julgamento de criança o Zé era um tremendo pilantra que vendia queijo com buracos e roubava no peso. Fomos mais cinco ou seis vezes tomar café, sem açúcar, no Abrigo Central.
Logo depois meu avô adoeceu e nos despedimos para sempre do Abrigo Central. Sua doença - é o que diziam na época - era arteriosclerose. Tinham até uma explicação para a sua doença: feijão, farinha e toucinho! No final da vida - já recluso e impedido de sair de casa - brincávamos de tabuada, de jogar dama e gamão, de contar dinheiro de papel jornal (sua brincadeira preferida) e se balançar na sua cadeira de vime no terraço.
Meu avô Batista era um “apaixonado” por bundas. Devo isso a ele e aos meus melhores pecados. Quando uma grande bunda grande passava na sua frente ele sorria e dizia: Olha lá a Raimunda. Feia de cara e boa de bunda! As mulheres hoje, explicava, são foguetes. Não são mais princesas do céu. São foguetes de rabo quente e pegam fogo por nada. São capetas! Vovô João Batista de Paula, o Batista da Light, morreu em fevereiro de 1968 - véspera de carnaval - um ano depois da demolição do Abrigo Central.

23.04.2020