Jabota Filomena

Já criei uma jabota. O quintal lá de casa no Ceará era de meio quarteirão somando as três casas da família Paula, da Vila Santa Terezinha, santa de reza e promessas da minha avó paterna Sarah. A jabota aparecia com o círculo das águas e sumia no verão. Foi assim durante anos. Mudei-me para São Paulo em 1972 e a moça da carapaça ficou por lá em algum lugar do passado. Hoje o espaço é um grande estacionamento e pertence ao Banco Central. Filomena (seu nome) era uma legítima “piranga”, heroína silvestre do folclore indígena. Diz à lenda que no dorso da sua carapaça inviolável moram os segredos e os sonhos místicos da floresta. Iara, senhora das águas, dorme na carapaça de uma jabota protegida da mula sem cabeça, do anão curupira e do lobisomem das luas. Saci Pererê, menino alegre e peralta, quando a mata arde e queima, deita-se na relva para escutar os conselhos sábios do um velho Jabuti. Juntos choram a dor da vida. É o que dizem. Boitatá cobra de fogo que protege a floresta da desgraça humana é irmã do bem. É ela quem primeiro alerta a bicharada do perigo em tempos de fogaréu. Filho de boto existe? Existe sim. Moço bonito, sedutor, poeta e namorador de causos. A lenda diz que boto não consegue fazer a metamorfose completa de animal para homem e, por isso, usa um chapéu feito do couro de jabota. Até a Cuca, bruxa má, que sequestra e come crianças que desobedecem a seus pais respeita os jabutis. É o que dizem. Isso tudo para lembrar - do nada - do anjinho de gesso que a professora Rosa me deu de presente de aniversário quando criança. Disse ela: coloque o anjinho na cabeceira da sua cama, do lado da sua jabota. Foi o que fiz e faço: sempre que penso nas sazonalidades de Filomena.