Dos olhos. Cansados e iludidos. Olhos seletivos, de escolhas. O escuro: cativa e muito. O som de tudo - além do silêncio maior - esta além de tudo. Parece que o mundo grita de dor. Surdez das orelhas? Talvez. Assusta pensar que é isso. No ensaio sobre a cegueira do escritor português José de Sousa Saramago (1922 - 2010) escuto pássaros e música. Das memórias afetivas: o eu menino, no cerol, danado de tudo, trepado num pé de goiaba. Das escolhas, então: tudo igual e novo. A vida continua irresistível e frágil. Das opções: certeza que a felicidade está dentro das palavras e o poema-sem-fim vive do seu melhor verso. Infinito, ainda. Das travessias: onde estarão todos? Dormem. Lá fora quase chuva. Estão no lugar de sempre: passivos, perdidos, esquecidos. E eu? Cego dos olhos: cansados e iludidos. O mundo grita de dor e fica: igual.
João Scortecci