Cora Coralina e Rachel de Queiroz

Um dia tudo aconteceu. O beijo roubado de Ana. Não foi lá nos Becos de Goiás e nem nas águas do Rio Vermelho. Um dia Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas perdeu o medo e virou Cora Coralina. Moça linda - cheia dos versos - que no dia 20 de agosto de 2019 completaria 130 anos de idade. Foi em 1983, na sede da UBE, quando da entrega do Prêmio Juca Pato - Intelectual do Ano. Eu pequenino e ela gigante! Curvei-me quase meio metro para que ela pudesse me roubar um beijo. Poucas mulheres já ganharam o valioso prêmio Juca Pato promovido pela União Brasileira de Escritores. Foi Cora Coralina que puxou a fila. Depois vieram Lygia, Rachel, Pallottini e Belinky. Foi a escritora luso-brasileira Dalila Teles Veras que - contra tudo e todos – lançou sua candidatura e a duras penas conseguiu listar as trinta assinaturas necessárias para o pleito. Uma mulher ganhando o Juca Pato e ainda uma poeta? Foi um momento de ruptura importante na entidade e que marcou época. Repeti o mesmo beijo roubado em 1992, desta vez de Rachel de Queiroz conterrânea e amiga da família. Meu avô paterno João Batista de Paula (O Batista da Light) era da cidade de Quixadá, no Ceará e na infância e adolescência haviam sido amigos. Rachel perguntou: você é neto do Batista da Light? Sou sim, respondi. Saudade dele. (meu avô faleceu em 1968). Batista era querido e estava sempre alegre e sorrindo, sentenciou. Rachel de Queiroz estava sentada confortavelmente em uma poltrona na sala da diretoria da UBE da Rua 24 de maio 250, aguardando o inicio da cerimônia. Curvei-me e a beijei. Foi o nosso último encontro. Rachel logo depois adoeceu e morreu em 2003, na cidade do Rio de Janeiro. Beijos roubados são assim: perigosos e inesquecíveis.