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"GATINHA" E O POETA EDGARD ALLAN POE

Todo gato domestico tem um nome. A minha doce e sensível gata - uma ex-moradora de rua - chamava-se simplesmente “Gatinha”. Acho que gostava do nome: nunca reclamou! Era mãe do Preto Garbo, um gato grande, branco e preto, que quando saía para namorar voltava todo arrebentado. Um dia não voltou. Gatinha ficou. Foi colaboradora da editora durante muitos anos. Era manhosa e esperta. Independente: assim são os felinos! Existem cerca de 250 raças de gato-doméstico. São predadores de diversos animais, como roedores, pássaros, lagartixas e insetos. Vez por outra Gatinha trazia de presente um pássaro morto ou uma lagartixa. Jogava a caça em cima da minha mesa de trabalho e cobrava carinho e atenção. Gatinha não aceitava desaforos. Quando ignorada subia na minha mesa de trabalho e com a ponta do rabo jogava a papelada no chão. Segundo pesquisas, os gatos consistem no segundo animal de estimação mais popular do mundo, depois - numericamente - dos peixes de aquário. Isso eu não sabia. Sempre pensei que fossem os cachorros. A chegada de um filhote de rato na editora, batizado de Edgar Allan Poe, mudou tudo. O sossego acabou. Gatinha perseguiu o camundongo e o pegou enfiado no ralo do banheiro. Levou-o até a minha sala e o soltou encurralado num canto. Gatinha parecia feliz, realizada. Olhou-me e sorriu. Sorriso maroto, inesquecível. Gatinha cheirou Poe, sentou-se, cruzou as patas da frente e enamorou-se pelo poeta e seus encantos. A editora inteira olhando, admirando a trama poética. Poe balançou a cabeça, pra cima e pra baixo, para os lados e, docemente, aninhou-se de amor nas patas da Gatinha. Desarmei a ratoeira - a pedido da Gatinha - e montei na lavanderia dos fundos um quarto de dormir para o casal. Poe depois de alguns meses, gordo e feliz, sumiu. Penso ter visto numa noite escura e sombria, enquanto eu escrevia, um corvo no muro do quintal. Desconfio que Edgar Allan Poe foi levado deste mundo. Gatinha - entristecida - nunca mais foi a mesma. Viveu, ainda, mais alguns meses. Morreu velhinha, letrada e única. Só isso e nada mais!

João Scortecci