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DOENÇA DE UMA SOCIEDADE DOENTE

Quem me apresentou ao filósofo e escritor indiano Jiddu Krishnamurti (1895 - 1986) foi o escritor inglês, Aldous Huxley, autor do livro “Admirável Mundo Novo”, romance distópico que marcou de sonhos a minha juventude. Li e reli a obra uma dezena de vezes. Talvez até mais! “Admirável Mundo Novo” foi livro de cabeceira durante anos, até o dia que sumiu. Escafedeu-se! Desconfio que tenha sido roubado. Até outro dia, desconhecia que havia sido Aldous Huxley o prefaciador da obra “A Primeira e Última Liberdade (1954)” do indiano Jiddu. Intimidade? Talvez. Jiddu – homenagem a Sri Krishna, uma das divindades mais importantes e veneradas do hinduísmo – é nome fácil de guardar na cabeça, apenas isso. Comprei o livro do filósofo Jiddu pelo correio. Entrega rápida! Deve chegar logo, creio. Uma frase filosófica do poeta Jiddu: "Não é sinal de boa saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente." Anotei. A expressão "sociedade doente" é o pesadelo do momento, descreve o estado atual de desgaste mental, emocional e social da humanidade. Ninguém mais se entende! Lendo sobre Jiddu na Internet: “A sociedade é uma abstração. Abstração não é realidade. Realidade é relação. A relação entre seres humanos criou o que chamamos de sociedade.” Que engodo! Interessante. Pretendo escrever sobre “A doença de uma sociedade doente”. Talvez um novo livro de poesias, algo assim. O livro “A Primeira e Última Liberdade” do poeta Jiddu ainda não chegou. Que demora! Passei na portaria do prédio e perguntei para o zelador: “Chegou alguma coisa pra mim?”. Não! Eu já sabia. Subi de volta para o 4º andar - onde moro - pela escadaria do prédio. Jiddu – ele mesmo - me aguardava parado na porta do elevador de serviço. Perguntou-me: “João, você já olhou para uma árvore sem uma única palavra de gosto ou desgosto, sem uma única imagem?” Talvez, respondi. Jiddu sorriu. Disse-me: Quando o livro chegar comece lendo sobre o “Esvaziamento da consciência”. Anotei. Jiddu, então, entrou no elevador e escafedeu-se. Estranho! Notei que carregava consigo um exemplar do livro “Admirável Mundo Novo” do Aldous Huxley. "Ladrão!" Gritei. Desci aos pulos pela escadaria do prédio. Não o encontrei mais. Filósofo safado! Protestei. “Sr. João, chegou a sua encomenda!” Era o zelador do prédio, feliz e prestativo. Entregou-me o pacote e junto, um bilhete, sem assinatura e data. Provavelmente do filósofo Jiddu, o ladrão! Estava escrito no bilhete: “Todo o seu conteúdo é ter total movimento de percepção e ação!”. Guardei o bilhete e abri a encomenda: Um exemplar do livro "A Primeira e Última Liberdade, de Krishnamurti." Estranho: tinha na folha de rosto uma dedicatória. "Para o impaciente e querido João Scortecci, do Jiddu.". Saúde é estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente, algo assim.

João Scortecci