Nos anos 2000, logo após a virada do século, decidi
contratar na editora um motorista CLT, para dirigir uma Strada da Fiat, com caçamba.
Precisava! Sigo - até hoje - o conceito básico da prudência: “só comprar algo quando
necessário!”. Fora isso: não! Sempre investi e acreditei na terceirização e na
colaboração mutua entre empresas e profissionais do setor. Na época não existiam
ainda Uber, 99, Lalamove e serviços autônomos de entregas, que hoje facilitam e
muito o dia a dia de uma empresa. Na cabeça uma única certeza: não queria
contratar um “motoqueiro”, ciente da responsabilidade e das consequências trabalhistas
em caso de um acidente com o trabalhador. Optei, então, por contratar um motorista
CLT. Perfil: Não tão jovem, com experiente no volante e que pudesse carregar pacotes
e caixas de livros. Demorou, mas encontrei. Na entrevista ele me disse: Quero
ter autonomia plena! Confesso: pegou-me de surpresa. Abri, então, o dicionário
que, durante muitos anos, ficou na minha mesa de trabalho: “Autonomia é a
capacidade de um indivíduo, grupo ou instituição de se autogovernar, tomar
decisões por vontade própria e agir de maneira consciente e responsável, sem
depender de imposições ou controle externo.”. Perguntei-lhe, então, já disposto
a contratá-lo. Autonomia plena? Ele, então, justificou-se: “Quero ter total autonomia
no serviço. Não quero ninguém pegando no meu pé, não quero usar uniforme, não quero
ajudante e não quero bater cartão de ponto!”. Só isso? Perguntei-lhe. Sim,
respondeu, balançando a cabeça. Começou a trabalhar no dia seguinte, uma
quarta-feira. Entreguei-lhe as chaves e o carro, com tanque cheio e limpo. Ele
abriu o capô do carro e examinou o motor: água, óleo, velas e freios. Depois faróis,
lanternas e pneus. Conferiu os documentos do veículo, o manual do proprietário,
as revisões obrigatórias e a apólice de seguro. Ligou o motor, conferiu o
painel e então, finalmente, sorriu. Parecia satisfeito! Trabalhou comigo
durante quase 3 anos. Sempre calado e autônomo. Um detalhe pertinente: ele
mesmo fazia questão de lavar o carro uma vez por semana, dispensando o serviço pago pela empresa no
posto da esquina. Durante o tempo que trabalhou na editora nunca bateu o carro,
nunca faltou ao serviço, nunca recebemos uma reclamação de cliente e nunca levou uma multa de transito! Pediu as contas - não quis cumprir o aviso prévio - e foi embora,
trabalhar por conta própria com um primo, algo assim. Meses depois fiquei
sabendo que havia falecido tragicamente num acidente de moto, atropelado por um
caminhão. Lendo sobre “Autonomia plena” lembrei-me dele: excêntrico, eficiente
e autônomo! No final do artigo uma nota em latim: “Quis custodiet ipsos
custodes?”, que significa "Quem vigia os próprios vigilantes?" ou
"Quem guardará os guardiões?" Anotei. Na segunda feira, pretendo levar
o meu carro para fazer uma revisão completa. E mais: trocar o óleo do motor, as
paletas do limpador de vidro, que andam fazendo um barulho dos infernos, substituir
o filtro do ar-condicionado e trocar uma lâmpada queimada da lanterna traseira. Sobre autonomia plena e pensamentos imortais em latim: "Quem guardará os
guardiões?". O povo! Ele e mais niguém.
João Scortecci