Das superstições. Das crendices, mitos, danças e lendas. Das práticas mágicas adotadas e vividas pelo povo brasileiro. Eu e os dicionários. Paixão antiga! Edição de luxo, em dois volumes, do Dicionário do Folclore Brasileiro, do potiguar - comedor de camarão, em Tupi - Luís da Câmara Cascudo (1898 - 1986). Uma obra prima! Presente do Editor e Amigo Luiz Alves Junior, da Global Editora. Sobre os adjetivos pátrios: classe de palavras que designam um indivíduo de acordo com o seu local de nascimento ou residência. Etnônimo: designa tribo, etnia, raça ou nação a que pertence o indivíduo. Exemplos: Guarani, Xavante, Tupi, Alemão, Gentílicos: Designa o país, a região, o estado, a província, o condado, o município, a cidade, a povoação ou afins, em que alguém nasceu, habita ou de onde procede. Exemplos: potiguar, capixaba, carioca, baiano, gaúcho, cabeça chata... Cabeça chata? Brincadeira. A expressão cabeça-chata é um apelido pejorativo usado para se referir aos nordestinos, especialmente aos cearenses. Ela surgiu ligada a estereótipos físicos associados à miscigenação indígena e ganhou força com as grandes migrações para o sul do país no século XX. Quando deixei o Ceará em 1972 e vim para São Paulo, não gostava de ser chamado de Cabeça chata. O termo “Cabeça chata” faz uma alusão preconceituosa à braquicefalia - formato de crânio mais achatado do meu povo. Hoje, depois de 50 anos, até gosto. Digo sempre: Inteligência além da conta! As histórias são muitas, algumas engraçadas: Nós cearenses temos a cabeça chata porque dormimos em rede! Ou, ainda, que o achatamento de nossas cabeças vem do fato de, desde criancinha, nossas mães darem - sistematicamente - “pancadinhas” nas nossas cabeças: “Cresça meu filho; cresça para ir ganhar dinheiro em São Paulo!”. A verdade é que nós cearenses assumimos o apelido. Um exemplo – oportuno - aconteceu com a torcida do Palmeiras – Sociedade Esportiva Palmeiras - que assumiu o apelido de "porco", em outubro de 1986, transformando uma ofensa dos rivais em um símbolo de orgulho. Hoje – 40 anos depois – ninguém resiste ao grito da torcida: "E dá-lhe Porco, e dá-lhe Porco, olê, olê, olé!". Sobre o potiguar Luís da Câmara Cascudo - o feio mais bonito do Mundo – digo sempre, não tenho mais medo das suas caretas: “Os pássaros não são devedores dos frutos e da água da fonte. Eles testificam, perante a natureza, a continuidade da missão cultural.”
João Scortecci