Pesquisar

O EMPRESÁRIO FRANCISCO E A PROBLEMÁTICA DO PAPEL HIGIÊNICO

A história é verdadeira. Aconteceu na empresa de um amigo do bairro do Butantã, na época com 25 funcionários, 17 mulheres e 8 homens, nos anos 2000. O amigo, infelizmente, faleceu da Covid-19, no ano de 2022. Gostava dele. Hoje o negócio é administrado pela filha mais velha. Vez ou outro ela me liga para contar as novidades e pedir conselhos. Francisco ligou-me e me convidou para um café numa padaria do Largo da Batata, em Pinheiros. Larguei tudo e fui. O amigo estava cabreiro e com um problema que não conseguia solucionar. Contou-me, então: O consumo de papel higiênico da empresa dobrou! O que faço? O que será que está acontecendo? Perguntou-me. Resposta, lógica, direta, simples: estão levando papel higiênico pra casa! Contei-lhe, então, como resolvi um problema parecido que tive na minha empresa, isso nos anos 1990, com o consumo além da conta de canetas esferográficas Bic Cristal. Comprávamos, mensalmente, uma caixa com 50 unidades. O consumo – do nada - dobrou. 100 canetas por mês! Um aparte, que dói no bolso: o consumo de material de escritório, limpeza e manutenção de uma empresa é assustador. Solucionei o problema das canetas Bic Cristal, exigindo que para receber uma nova caneta, o funcionário deveria, então, devolver a Bic vazia. Em pouco tempo – dois meses, no máximo - o consumo voltou ao normal. Hoje, na Editora, não compramos mais canetas, usamos as que ganhamos de brinde, quantidade mais do que suficiente. Um detalhe, insignificante: não gosto de canetas escrita fina. Francisco, sabiamente, questionou: Não posso exigir que os meus funcionários devolvam o “rolinho” vazio. Posso? Não, respondi. O consumo é coletivo e, estatisticamente, sabe-se que as mulheres costumam usar o dobro de papel higiênico. Sugeri, então: Francisco você precisa de números, dimensionar o problema, sugiro conversar com um funcionário antigo, de sua confiança, de preferência um homem, daqueles que “comem” muito, que, com certeza, vão ao banheiro, uma ou duas vezes por dia. Certo? Pergunta pra ele duas coisas: Se ele faz o número 2 na empresa e mais: quantos metros de papel higiênico ele usa para se limpar. Na média – os números não mentem – o consumo é de 1 metro por pessoa, por vez, para se limpar. Francisco anotou, pagou o café e escafedeu-se. Chegou à empresa, chamou o gigante do Rogério na sua sala, e papo vai papo vem, apertou a descarga: Rogério, você faz o número 2 na empresa ou na sua casa? Rogério – sem cerimônia – respondeu, na lata: Patrão, aqui na empresa, assim que chego. Desço do ônibus já soltando fumaça. Francisco - encorajado com a resposta positiva - faz, então, a segunda pergunta: e quantos metros de papel você usa para se limpar? Rogério abriu os braços e sinalizou: 1 metro, aproximadamente, tamanho calculado no olho. Patrão, o que está acontecendo? Francisco, então, contou-lhe a problemática. Comprávamos mensalmente 1 fardo com 64 rolos de 30 metros cada e do nada, o consumo dobrou. Rogério caiu na gargalhada! Estão levando papel higiênico pra casa! Sentenciou. O Senhor viu o preço? Francisco, não satisfeito, ligou-me e contou toda a conversa que teve com o colaborador Rogério. Juntos, então, fizemos as contas, usando como base, 1 metro por dia, para cada homem e 2 metros por dia, para cada mulher. A conta ficou assim: 22 dias úteis por mês, 176 metros para os homens e 352 metros para as mulheres. Total 528 metros por mês. Dividindo por 30 metros, medida de cada rolo de papel higiênico, chegamos ao número de 17,6 rolos por mês. Francisco comprava 64 rolos por mês e dava na conta certa. Agora, pasmem, nos últimos 3 meses, estava tendo de comprar 128 rolos. Isso é um absurdo! Declarou. Estão me roubando mais de 60 rolos por mês. É a máfia do papel higiênico! Brinquei. Francisco não gostou. Protestou. Questionei, tentando amenizar a ira do amigo: Disse-lhe: E você, e os clientes da casa, os dias trágicos, as diarreias, o consumo não aumenta substancialmente? Francisco não respondeu, bateu o telefone. Algum tempo depois, visitei o amigo. Pedi para ir ao banheiro e fui logo avisando: Vou fazer, apenas, o número 1! Fechei a porta do banheiro e de cara encontrei um aviso gigante grudado no espelho: “Não levem papel higiênico pra casa. A natureza agradece!”. Voltei para a sala do amigo e perguntei-lhe: O consumo de papel higiênico voltou ao normal? Francisco respondeu: Sim! Estamos até economizando 2 rolos por mês. Isso é incrível. Descobri que a minha empresa é ecologicamente sustentável. Estou muito feliz! Anotei. Hoje, quando faço apresentações para o mercado editorial e gráfico sobre “Práticas Sustentáveis - ESG” – para descontrair, claro – conto a história do Francisco, onde um simples aviso - as vezes - é capaz de resolver problemas crônicos. As frases de efeito - quase sempre - costumam funcionar. Perguntei-lhe, antes de ir embora: Francisco você tirou do banheiro o aviso de “Lave as mãos depois de usar o banheiro?” Francisco respondeu, de pronto: Sim. Também estamos economizando água!

João Scortecci