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DAS MUITAS MARIAS, MAIS QUE AS ESTRELAS DO CÉU!

Foi o poeta pernambucano Manuel Bandeira (1886 – 1968) quem declamou os versos, os mistérios e os segredos da “Canção de Muitas Marias”, isso em 1940. Na época da aparição, eu ainda não era nascido. Nasci depois, no ano de 1956. Diz o poema: “(...) Há mais Marias na terra. / Tantas que é um não acabar, / Mais que as estrelas no céu, / Mais que as folhas na floresta, / Mais que as areias no mar! (...)”. Guardei na alma, desde então, o amor pelas Marias, ricas e pobres, santas e pecadoras, mulheres, todas inesquecíveis e eternas. Digo com a boca do coração: as mulheres – todas, sem exceção – deveriam ter uma Maria qualquer no nome! No poema de Manuel Bandeira gosto mais que tudo deste verso: “Mais que as estrelas do céu!”. Céu de Marias das Graças! Desde menino coleciono santinhos de Marias. Eu os guardo num quadro de feltro, na parede da minha sala na editora. Quando tudo isso começou? Não sei. Aconteceu, simplesmente. Foi na aparição da “Canção de Muitas Marias” que me vi devoto de Nossa Senhora das Graças. Então, olhamo-nos! Ela, Maria das Graças, conhecida como a “Maria da Medalha Milagrosa”, associada às aparições de Maria, em 1830, à noviça Santa Catarina Labouré, em Paris, França. No ano de 1966, meu irmão José Henrique, na época com 15 anos de idade, brincando de pega-pega com um amigo de classe – no Colégio Cearense, da Congregação Marista, na cidade de Fortaleza, Ceará – trombou, inesperadamente, com Maria das Graças, derrubando-a no chão. A santa se espatifou! Surpreso, perguntou-se: “O que Maria das Graças fazia ali, perdida, no meio da classe?”. O que descobriu, depois: Maria peregrinava, cada dia numa classe, orando e protegendo todos. Quando a santa caiu no chão, o mundo do meu irmão José se esvaziou. Ele perdeu o fôlego e tombou de dor. O irmão Marista Armando (Armando Vasconcelos Reis, 1943 – 2023), responsável pela peregrinação da santa, castigou-o, obrigando-o a repor a imagem de outra Maria, Nossa Senhora das Graças. Foi o que aconteceu, prontamente. Irmão Armando lecionava Ciências e Francês no Colégio Cearense e lá ficou de 1963 até 1967, quando se mudou para Recife/PE. Antes de partir nos procurou e devolveu a imagem de Maria, de Nossa Senhora das Graças. Disse-nos: “Sempre que rezo para a Maria, lembro-me do José Henrique! Nada mais justo que a imagem fique com ele”. Foi o que aconteceu. Maria ganhou na casa meu irmão um lugar especial, um pequeno oratório, no corredor central, ligação da sala de jantar com os quartos. No ano de 1970, José Henrique se mudou para a cidade de São Paulo e Maria das Graças ficou em Fortaleza. Em 1982, meus pais, Luiz e Nilce, deixaram o Ceará, mudaram-se para Pouso Alegre/MG e depois, por fim, para a capital paulista. A santa foi empacotada e despachada para o endereço do José Henrique, onde permanece até hoje. Deu-lhe um oratório de madeira e desde então a venera e protege. José Henrique, espírito do navegador e explorador italiano florentino Américo Vespúcio (1454 – 1512), nasceu no ano de 1951, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Sua história de muitas aventuras é incrível. Pintor, escultor, velejador, navegador e aviador. Esteve na Antártica e cruzou oceanos. Para onde vai, carrega junto Maria das Graças. Numa de suas aventuras, voando no seu Bravo 700, um monomotor de dois lugares, junto com o amigo Antônio Formiga, tiveram que fazer um pouso de emergência na Serra de Biritiba Mirim, nas proximidades de Mogi das Cruzes, município paulista, na região do Alto Tietê, a cerca de 70 km da capital do estado. Pilotavam com visão zero. O avião bateu no topo de uma árvore e a hélice se quebrou. Foram socorridos por um morador da região que os levou para a sua casa. Lá chegando, encontraram uma pequena capela com a imagem de Nossa Senhora das Graças, que os acolheu são e salvos. Outro dia meu irmão José Henrique me pediu para escrever e contar a história das Marias das Graças, sobre as muitas vezes que ela o salvou da morte. “Sim”, respondi. Sentei-me e abri o poema “Canção de Muitas Marias”, de Manuel Bandeira. No momento, José Henrique se recupera de um acidente de bike em que quebrou a clavícula. Na conversa, eu, ele, Bandeira e Vespúcio bebemos e celebramos o encontro. Depois, mais que as estrelas no céu, mais que as areias no mar, rezamos os versos das Marias das Graças, de Nossa Senhora: “Ó imaculada Mãe de Deus e nossa Mãe, ao contemplar-vos de braços abertos derramando graças sobre os que vos pedem... “.

João Scortecci