Das mesas e dos pratos do dia de mãe. Pernil assado e macarronada com molho à Bolonhesa. Sobremesa: pudim de leite e manjar branco. Toalhas, copos e garrafas. Risos! Tudo igual como sempre foi. Coisas de mãe. Tudo igual na cabeça, no fogão, nas panelas, no coração, nos cheiros de infância. Ninhos, apertos, arrepios e abraços no cangote. Mamãe Nilce tinha cheiro gostoso! Um doce de “fadas” e lavanda. No batente da mesa da cozinha o seu, o nosso, o livro de receitas da vovó. Apenas ele. Livro surrado, rasgado, com páginas soltas e amareladas. Ele ficou! Vieram outros livros – brilhantes, coloridos – que hoje enfeitam a estante da sala de visitas. Mesa posta - acolhedora e completa -, cadeiras, azeites, queijos, pães de forno, azeitonas, vinhos e desejos. Roupas novas, sapatos, vestidos, bolsas, anéis, colares, relógios e dedos de espera. Cadê o povo? Estou faminto! Já estou com nó nas tripas! Até outro dia - todos - chegavam. Papai, mamãe, irmãos e amigos. Chegavam de um jeito ou de outro: atrasados, famintos, incertos. Chegavam para o almoço de mãe. Mamãe partiu. Papai partiu, irmão partiu. E, desde então, ausências e tristeza. Vazio profundo. Nada do agora me alegra. Até tento: nada responde. Nada do hoje acontece. Abandonamos o pernil assado, a macarronada com molho à Bolonhesa, os risos. Hoje vai ter feijoada, farofa, couve e torresmo. Confesso: inveja de quem ainda tem mãe viva com cheiro de lavanda e abraço de pudim de leite. Tudo igual na cabeça, no fogão, nas panelas, no coração, nos cheiros de infância. Tudo igual. O que ficou? O livro de receitas da vovó, as fotos do coração e o arrepio no cangote do tempo: incansável, dolorido e eterno.
João Scortecci