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REI MOMO E O VÍCIO DA TRISTEZA

Carta à Gilda, filha de seu bobo da corte! Momo é Filho do Sono e da Noite. Um observador! Adora fazer graça de tudo: com graciosidade! Carrega uma máscara numa mão e uma figura psicodélica na outra, com o poder mágico de curar os homens dos vícios da tristeza. Missão: divertir a todos! A figura surgiu - pela primeira vez - numa festa de carnaval em Barranquilla, na Colômbia, em 1888. No Brasil, somente em 1933, na cidade do Rio de Janeiro. Os jornalistas Edgard Pilar Drumond, Vasco Lima e Outros, do jornal vespertino “A Noite”, da cidade do Rio de Janeiro, editado entre 18 de junho de 1911 e 27 de dezembro de 1957, criaram um boneco de papelão, esculpido pelo artista Hipólito Colomb, a que chamaram Rei Momo. O sucesso foi imediato! Em 1934 decidiram, então, transportar o personagem do papelão para a vida real. O cronista Moraes Cardoso (Francisco de Moraes Cardoso) aceitou o cargo de ser o primeiro rei da folia do carnaval brasileiro. O maestro italiano Sílvio Piergili (1888 - 1962), consultado sobre a indumentária do futuro rei, este, ao saber o físico do escolhido, não teve dúvidas em entregar ao Momo, a vestimenta do Duque de Mântua, personagem da ópera Rigoletto (1851), de Giuseppe Verdi. O Jornalista Moraes Cardoso foi o rei Momo pelos 15 anos seguintes, até a sua morte, em 1948. A tradição se manteve e hoje - Rei Momo, durante o período carnavalesco – é o dono das chaves da cidade e o mascarado responsável pela folia e com a obrigação ímpar de curar o vício e a tristeza dos homens. Na obra de Giuseppe Verdi, o Duque de Mântua é retratado como um governante hedonista, cínico e sedutor, cujas ações desencadeiam a tragédia da obra. É descrito como um nobre libertino, que trata as mulheres como objetos e os seus cortesãos com desprezo. Não demonstra remorso por suas ações, acreditando que o poder lhe dá o direito de satisfazer todos os seus desejos. A trama gira em torno de sua busca incessante por conquistas amorosas. Ele seduz a inocente Gilda, filha de seu bobo da corte, Rigoletto. Embora a ópera seja baseada em Le Roi s'amuse de Victor Hugo - que retratava o rei francês Francisco I - Giuseppe Verdi, por pressão da censura da época, mudou o cenário para a corte do Ducado de Mântua e representa a corrupção do poder e a amoralidade aristocrática que contrasta diretamente com a tragédia vivida por Rigoletto e Gilda. O bobo da corte - ou bufão - era um colaborador oficial das monarquias europeias encarregado de entreter a realeza. Vestidos de forma extravagante, usavam humor, música e malabarismo para divertir a corte. Tinham uma regalia perigosa: podiam dizer "verdades incômodas", sem punição. Para quem gosta de "foliar" no carnaval recomendo olho nas graciosidades do Rei Momo - o Filho do Sono e da Noite. E, aos desavisados, cuidado com a chave da cidade e os vícios da tristeza.  

João Scortecci