Pesquisar

LÊ E DEPOIS DELETA!"

 Acordei cedo - 1 hora antes do horário de sempre. Montei na bike e no pedal, fui até o Sambódromo do Anhembi. Gosto de ver os carros alegóricos de perto, sendo manobrados no imenso estacionamento que fica ao lado. Visitei o busto do cantor e compositor Geraldo Filme, no antigo Largo da Banana, hoje Viaduto Pacaembu. Depois voltei, exausto. Lendo artigo de 2011 na Revista Piauí: “A correspondência amorosa mais famosa do Brasil talvez seja aquela formada pelas cartas trocadas de 1822 a 1829 entre o Imperador D. Pedro I e sua amante, Domitilia de Castro Canto e Mello, elevada por ele ao titulo de Marquesa de Santos em 1826. Infelizmente, das prováveis centenas de cartas escritas pela Marquesa apenas um punhado foi conservado nos arquivos imperiais. Por sorte, quase todas as cartas do Imperador foram guardadas pela Marquesa, apesar dos pedidos de D. Pedro para que as destruísse.” A sina até hoje continua, mesmo depois de 200 anos. Pedir para alguém "deletar" uma mensagem "perigosa" enviada na confiança, é algo difícil de acontecer. “Lê e depois deleta!”. Não funciona. Continuando a leitura da Revista Piauí: “Consta que numa gaveta reservada da Biblioteca Nacional há outra carta para a Marquesa à qual o Imperador Pedro agregou também cabelos arrancados de uma parte íntima de seu corpo.” É possível. Não duvido. Na matéria fala, ainda, de um conjunto de 36 cartas originais de D. Pedro à Marquesa de Santos, encadernadas num livro, compradas na Europa de um descendente da Marquesa por um embaixador brasileiro na década de 1930.  O volume foi encontrado há alguns anos escondido na gaveta de uma senhora de 93 anos recém-falecida. O livro encadernado com as cartas de Pedro para a Marquesa fora comprado da viúva do embaixador em 1958, por Adhemar de Barros, então Governador de São Paulo, que as desejava presentear à sua amante, Ana Gimol Capriglione (Ana Gimol Benchimol Capriglione, 1911 – 2005), pois Ademar achava sua história de amor semelhante a da célebre paixão imperial. Adhemar de Barros – cassado a mando do Marechal Castello Branco - morreu de infarto, na França, aos 67 anos de idade, em março de 1969, no auge da Ditadura Militar. O seu enterro já seria complicado, em razão da possibilidade de se transformar em ato público contra o regime militar, mas surgiu um segundo complicador, tão logo seu corpo foi levado a casa em que morava na Rua Maranhão, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, sua amante, Ana Gimol Capriglione, o "Doutor Rui", fazia questão de velá-lo até o fim. Com o que não concordavam os filhos e sua mulher, Leonor Mendes de Barros. Coube a ex-deputada Ivete Vargas (1927 – 1984), sobrinha de Getúlio Vargas, entrar em cena para negociar o cerimonial fúnebre. Ficou assim: as viúvas - Leonor e Ana - dividiriam, então, o velório: "Doutor Rui" até o início da madrugada, e, em seguida, a família legalmente constituída. Deu certo. Foi a família oficial que acompanhou Adhemar, sem sobressaltos políticos, ao cemitério da Consolação. A mansão de Adhemar de Barros da Rua Maranhão, em Higienópolis, não existe mais, foi demolida e no local foram construídos edifícios residenciais. “Lê e depois deleta!”.  

João Scortecci