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GIOVANNI, O AÇOGUEIRO CARCAMANO E O MERCANTIL SÃO JOSÉ

Deus é gracioso! Giovanni era dono de um pequeno açougue de carnes que ficava na rua de cima daquela onde morávamos, na cidade de Fortaleza/CE dos anos 1960. Giovanni falava pelos cotovelos: mexia as mãos e os braços. Só parava para coçar o nariz e alinhar os fios do seu imenso bigode à la Salvador Dali. Era de Nápoles, cidade da Itália, capital da Campânia. Mamãe Nilce anotava o pedido num pedaço de papel e recomendava: “Olho no carcamano! Ele mete a mão no peso e no contrapeso!” Quem tem mais de 60 anos e comprava carne em açougue de bairro, conhece a malandragem do contrapeso, comum, na época. Giovanni – rápido que só ele – jogava a carne na balança de dois pratos e juntava um pedaço generoso de sebo. Gritava: “Cos’altro! Cos’altro!”. E, mais ligeiro ainda, enrolava a carne em papel jornal. Quando mamãe Nilce recebia a carne, soltava fogo pelo nariz. Dizia, aos gritos: “Carcamano dos diabos!”. “Carcamano” é um termo pejorativo para designar italianos e seus descendentes, popularizado no início do século XX, associado a trapaceiros. “Questo è carca a mano!”. Mamãe Nilce era neta de italianos de Arezzo, Toscana, e, pelo que sei: meus avós não tinham simpatia alguma pelos napolitanos. Um dia – soltando fumaça pelo nariz – encarou, de frente, o simpático napolitano. Fui junto, de segurança, com a minha baladeira pendurada no pescoço e o bolso cheio de bilas, bolinhas de gude. Mamãe foi feroz. Giovanni ficou calado, coçando o bigode e cutucando o nariz. Olhou-me duas ou três vezes, enquanto eu esticava a baladeira no pescoço. Eu, sempre alerta, mirava com os olhos o balcão de vidro do açougue. Giovanni escutou tudo, pacientemente, até mamãe Nilce se acalmar e controlar o agito das mãos. “Tutta brava gente! Viva l’Italia!”. Giovanni – é do que me lembro – nunca mais colocou contrapeso no quilo de patinho, carne preferida da minha mãe. O patinho é um corte nobre, retirado da parte traseira, magro e macio, ideal para moer e fazer almôndegas. O segredo? Mãos delicadas e pouca força; se apertar além da conta, as almôndegas ficam secas e duras. O que descobri – mas nunca contei para a minha falecida mãe – o carcamano não colocava mais o dedo no nariz. Colocava – desde então – o dedo no prato de aço da novíssima balança eletrônica – recém comprada – onde o “Calca a mão”, calibrava o peso da engenhoca e dizia: “Essa não erra!”. É dessa época a inauguração do primeiro supermercado de Fortaleza, o Mercantil São José, no ano de 1962. Mamãe Nilce, então, trocou de mundo. Repetia feliz: “Aqui tem tudo!”. Pra mim sobrou o serviço pesado: empurrar o carrinho de compras. Um detalhe insignificante: naquela época os carrinhos eram enormes, pesados, de ferro, e as rodinhas faziam um barulho dos infernos. Ficaram – do amor de mãe – as almôndegas de patinho. “Tutta brava gente!”

João Scortecci