Apalavrar e pactuar! Depois, então, abraçávamo-nos! Eu e você – crianças do tempo de ontem – lado a lado, no lambe-lambe da praça da matriz. Éramos raízes: trilhas da foto preto e branco! até então: o apalavrado nos bastava. Fio de bigode, cumplicidade, crenças. Valia o olho! Valia o dedo agudo na boca do vento! Valia o sangue do pacto eterno! Eu segurando um poema-cartaz e você - desavisado de tudo - um pote de cola. Olhamo-nos. Perguntei-lhe, então: você me empresta a cola? Surpreendeu-me: “Com uma condição!” Disse-me. Quis, então, saber. Resfolegou-se: “Quero colar o cartaz-poema no lambe-lambe!”. Silêncios. Alinhei o cartaz-poema no lambe-lambe da praça da matriz e você – com uma brocha – molhou de cola e água os versos do papel. Parecia feliz. Depois, deu dois passos para trás e leu, em voz alta, o poema. Algo assim: Apalavrar e pactuar! Depois, então, despedimo-nos de vez. Adeus. Perdemo-nos no tempo: um do outro. Mil anos, talvez. Hoje, acordei com a visão do lambe-lambe no coração. Inteiro e iluminado. Vivíssimo, em preto e branco: praça da matriz, infância, lembranças. Abraçávamo-nos! O cartaz-poema estava lá: pactuado, apalavrado, nas raízes do tempo. Na valia do olho!
João Scortecci