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NO DIVERSO DE NÓS

Eu estava lá, você também e outros. Contei a minha versão do que havia visto: detalhadamente! Todos riram de mim. Você, então, contou a sua versão. A mesma história: só que do seu jeito: leve e doce. Todos – incrédulos – gargalharam de nós. Outros tentaram – em vão – explicar do mesmo, do que haviam visto, sem sucesso. Não houve consenso e nem certeza alguma sobre nada. Silêncios. Eu estava lá, você também e outros. Calamo-nos, então, no diverso, na singularidades do vazio. Cada alma com o seu jeito de ser! Nós, poetas, sentamo-nos, então, no chão do silêncio, no caminho do tempo. E lá ficamos: perdidos, ausentes, distantes. Versamos e cantamos - juntos - palavras de amor, de morte, de dor, do nada sobre o nada. Depois, acendemos fogueiras e algumas luas. Assamos batatas, castanhas e milho verde. Bebemos mel e sangue. Já tarde da noite, despedimo-nos, uns dos outros, com gosto de fim. Antes do último gozo, queimamos no fogo versos do poema incompleto. Selamos, ali, então, nossos destinos. Nossos pecados, nossas danações nas águas do rio, dos gritos - amordaçados - no avesso de nós. Apagamos, ainda, do caminho da volta pés, trilhas, segredos e mapas. Nada ficou. Nenhuma travessia, sem rastros. Nenhum cheiro no ar. Partimos, então. E os versos, então, gargalharam de nós. Juventude transviada! James Dean? quem lembra? Era o moço rebelde da seção da tarde, do topete, dos rachas, das pelejas. Era - de longe - a melhor versão da época. Era o visto. E a sorte rindo de nós.


João Scortecci