Mário, meu querido credor: de Andrade. De quanto anda a minha dívida com você? Impagável, eu sei. Não custa perguntar. Devo e não nego. Na adolescência fui Lira Paulistana. E vez ou outra: um verdadeiro Macunaíma! Na Pauliceia - desvairadamente - contei meus anos e descobri que tenho menos tempo para viver a partir daqui, do que o que eu vivi até agora. A vida é veloz! Você me disse, um dia: não devemos servir de exemplo a ninguém. Verdade. Mas podemos servir de lição! Somos um poço infinito de mentiras, medos, tentações, frustrações e dor. Muita dor. Viu que não uso aspas no texto? Tudo teu mesmo. Hoje, completo – quase – setenta anos de idade. Sinto-me como aquela criança que ganhou uma cesta de brigadeiros de chocolate: feliz e desconfiada, com os mistérios do futuro. O primeiro brigadeiro eu comi com prazer, com gula, gosto e assim foi. Um depois do outro. Descobri, com o tempo, que restam agora, poucos brigadeiros na cesta que é a vida. Eu sei: nada nela é inesgotável. Passei, então, a saboreá-los lentamente, com amor, gozo e reservas. Gosto da solitude da - quase - velhice. Escrevo e faço o que gosto: e nada mais! Não faço o que não quero. Simples assim. Não tenho tempo e nem paciência para os chatos, os grudentos e os babacas. Cansei? Não. Nós temos duas vidas e a segunda começa quando você percebe que você só tem uma. Viu que continuo não usando aspas no texto? Tudo teu mesmo.
João Scortecci