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FARDA, FARDÃO, BILAC E PATROCÍNIO, EM TEMPOS “VAPOROSOS”

O inventor e industrial francês Léon Serpollet (1858 – 1907), foi o pioneiro dos automóveis e bondes movidos a vapor, da marca Gardner-Serpollet. Em 1896, inventou e aperfeiçoou a flash boiler, um tipo especial de caldeira, muito mais compacta e controlável, ideal para o uso em veículos. Em abril de 1902, na capital da França, dirigindo seu potente Serpollet, obteve o recorde de velocidade no solo: 120,8 km/h. O primeiro carro da cidade do Rio de Janeiro – um Serpollet a vapor – foi adquirido pelo farmacêutico, jornalista e abolicionista José do Patrocínio (José Carlos do Patrocínio, 1853 – 1905), que trouxe a novidade, no ano de 1897, quando retornou de Paris. Na história das “trombadas” literárias, foi o primeiro arauto de acidente automobilístico da cidade do Rio de Janeiro, na época, Capital Federal. No volante – na função de piloto – estava o poeta, inspetor de ensino e membro da Academia Brasileira de Letras, Olavo Bilac (Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac, 1865 – 1918); e, de copiloto e orientador, o próprio José do Patrocínio. A máquina abalroou à velocidade de 4 km/h, na estrada velha da Tijuca. A vítima teria sido uma árvore que, bravamente, resistiu ao impacto. A mesma sorte não teve o vaporoso Serpollet, que acabou no ferro-velho. É o que dizem. Dizem, ainda, que Olavo Bilac se gabava de ter sido o precursor dos acidentes de automóvel no Brasil. Em crônica publicada no jornal A Notícia, em 1905, Bilac assim descreve o primeiro automóvel da cidade do Rio de Janeiro: feio, pequenino, amarelo e que deixava um cheiro insuportável de petróleo no ar e, quando "havia pane, a garotada, formando círculos em torno do veículo, rompia em vaias." Sinopse dos fatos: poeta, inspetor de ensino, acadêmico, parnasiano, desabilitado, abalroou máquina alheia, no tronco de uma árvore, na Tijuca, “com o afeto que se encerra em nosso peito juvenil”. O resto é fofoca e – de passagem – não faz parte de Farda, Fardão, Camisola de Dormir (1979) – romance em que são narradas intrigas políticas em eleição para a Academia Brasileira de Letras, durante o Estado Novo –, nem das desavenças ideológicas de seu autor Amado, o Jorge.

João Scortecci