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ACERVINO DE JESUS, O BOCA BV

Acervino era nome próprio. Eu mesmo - depois do papo com o moço - vi escrito na sua cédula de identidade: Acervino de Jesus. “E o que eu faço?”. Era a colaboradora do RH, perguntando, o que fazer. “Registra o moço. Gostei dele!” Respondi, já prevendo o imbróglio que seria contratar na empresa, um funcionário com um nome no mínimo “diferente”. “A carteira de trabalho dele é BV”. Era a colaboradora do RH, informando, tentando dizer-me algo que eu, provavelmente desconhecia. “BV? O que isso significa?”. Quis saber, curioso. “Virgem!”. “Nenhum registro em carteira!”. Explicou-me. Não conhecia, até então, o significado da sigla BV. Abri a Internet e busquei, então, a resposta: “boca nunca beijada, virgem.”, Algo assim. Morrendo e aprendendo! “Chama aqui, agora, o Acervino. Quero conversar com ele!”. Pedi. Acervino veio - desconfiado - e sentou-se, duro feito uma pedra, numa das poltronas interlocutoras da sala. Ao seu lado, na outra poltrona, a colaboradora do RH. Acervino, uma pergunta: “Quem lhe deu o nome de Acervino?”. Perguntei. “Minha falecida Mãe!”. “Morreu quando eu tinha 15 anos de idade.” Explicou-me. Lamentei. “E o seu pai?”. “Não tenho pai!”. Respondeu-me, na lata. “Fui criado pela minha avó, em Beagá.” “Entendo.” Justifiquei-me. “E a profissão da sua mãe?”. “Ela era Bibliotecária, trabalhava no acervo, no setor de arquivos, de uma Fundação Cultural Francesa, em Beagá.”. Acervino, uma pergunta: o seu nome tem alguma “história” com a profissão da sua mãe?”. Quis saber, já desconfiado. “Tudo!”. Respondeu-me. Acervino, então, resolveu soltar a língua. Contou-me que o seu nome era para ser Arquivino. No cartório de registro, o Juiz implicou com o nome. Na hora - na maior pressão - minha avó, que estava junto, sugeriu, então: Acervino. De acervo. O Juiz, não gostou muito da sugestão, mas acabou aceitando o registro. “Puxa!”. “Sua mãe gostava mesmo do serviço, né?”. Argumentei. “Gostava muito!”. Respondeu-me. “Vez por outra até dormia no trabalho, fazendo um extra.”. “Compreendo”. E continuou falando: “No meu aniversário de 15 anos - um ano antes dela morrer do coração - contou-me que fui gerado em cima de um arquivo de aço.”. “Jura?”. Comentei. Acervino, não disse nada. Apenas me olhou, parecia surpreso. Quebrei, então, o silêncio: “Acervino, aqui na empresa, você vai ser feliz!”. “Aqui você vai trabalhar no berço, no depósito de originais de livros, e lá, o que não faltam, são arquivos de aço, estantes, armários e mapotecas!”. “Uma última pergunta: no acervo, onde sua mãe trabalhava, tinham mapotecas?”. “Não sei. Por quê?”. Perguntou-me. “Por nada.”. “Tenha um ótimo dia!”. Despedimo-nos, com um forte aperto de mãos. Acervino saiu da sala, acompanhado da colaboradora, da área de recursos humanos. Depois, sozinho, pensando com os meus miolos, questionei-me: E se o Acervino tivesse sido gerando em cima de uma mapoteca? Qual seria, então, o seu nome? Mapovino? Talvez. Acervino trabalhou na empresa pouco mais de três anos. Um dia pediu as contas e volto para Beagá, cuidar da avó, adoentada, já nas últimas. Coincidência ou não, naquele mesmo ano, me desfiz da mapoteca, de três mesas de luz, e de alguns arquivos de aço. Era a época da chegada dos CD-ROM (Compact Disc Read Only Memory) e dos CD-R (Compact disc-recordable), que - prometiam - guardar de tudo, desde dados genéricos, vídeos e áudios. Investimos pesado, na nova tecnologia. Os pen-divers, os HDs externos e hospedagens nas nuvens, ainda não existiam, para os mortais. Surpresa foi, alguns anos depois, descobrir que os CD-Rs, todos, estavam vazios, virgens, BVs. 

João Scortecci