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“DECAMERÃO”, DE BOCCACCIO, E “A DIVINA COMÉDIA”, DE DANTE

Decamerão é uma coleção de cem novelas escritas pelo poeta e crítico literário florentino Giovanni Boccaccio (1313 – 1375). As histórias são contadas por um grupo de sete moças e três rapazes que se abrigam em um castelo próximo de Florença, Itália, para fugir da peste negra, que afligia a cidade. Boccaccio provavelmente iniciou Decamerão após a epidemia de 1348 e o concluiu somente em 1353. As histórias de amor vão do erótico ao trágico: histórias de sagacidade, piadas e lições de vida. Além do seu valor literário e ampla influência, o livro fornece um documento da vida na época. Escrito no vernáculo da língua florentina, considerado uma obra-prima da prosa clássica italiana. Com subtítulo de “Príncipe Galeotto”, Decamerão marca com certa nitidez o período de transição vivido na Europa com o fim da Idade Média, após a epidemia da peste negra. A obra tem o senso medieval de numerologia e significados místicos. As sete moças representam as Quatro Virtudes Cardeais (Prudência, Justiça, Fortaleza, Temperança) e as Três Virtudes Teologais (Fé, Esperança e Caridade). E os três homens da trama representam a Divisão da Alma em Três Partes (Razão, Ira e Luxúria), conforme a tradição helênica. Boccaccio, especializado na obra do florentino Dante Alighieri (1265 – 1321), ao ler a Comédia (poema épico e teológico, dividido em três partes: “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso”), ficou tão fascinado que a renomeou de A Divina Comédia, título com o qual a obra seria, então, imortalizada. Boccaccio foi autor de uma das primeiras biografias de Dante Alighieri, intitulada Trattatello in laude di Dante, também conhecida como Vita di Dante. Fascinado e absorvido pela obra do biografado, Boccaccio iluminou Decamerão com significados místicos e espirituais – conscientemente ou não –, buscando atingir, na divindade, a imortalidade da Comédia. Boccaccio faleceu no dia 21 de dezembro de 1375, aos 62 anos de idade. Seu corpo está sepultado na Igreja de São Jacó e São Filipe, em Certaldo, na Toscana, Itália. Quando o vi, pela última vez, estava em Florença, no Purgatório de Dante. “Boccaccio, o que se passa?” Ele me olhou, surpreso, e disse: “Não consigo me decidir. Estou repleto de premissas contraditórias! Estou num dilema filosófico, paradoxalmente fundamentado numa mesma conclusão de dúvida: Paraíso ou Inferno? Paraíso e nunca conhecer o Inferno ou Inferno e jamais conhecer o Paraíso?”. Boccaccio parecia estar sofrendo, muito. Foi quando, então – inocentemente – sugeri que escrevesse Decamerão: “Ocupe-se!”. Foi mais ou menos assim que tudo aconteceu. Nunca mais o vi. Giovanni Boccaccio se foi – coçando a cabeça – e eu fiquei, no limbo, rendido e abduzido, com o dilema sobre a vida: “Paraíso ou Inferno?” Desde então, tornei-me hóspede no Purgatório de Dante. Sinto dores no corpo, frio na barriga, calor no pescoço e tentações. Muitas! Desta feita, herança de Boccaccio, o moço de Florença. 

João Scortecci