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A "BÍBLIA DE WYCLIFFE" E OS MURMURADORES

O filósofo, professor da Universidade de Oxford, teólogo e reformador religioso inglês John Wycliffe (1328 – 1384) é considerado precursor das reformas religiosas que sacudiram a Europa nos séculos XV e XVI. Wycliffe trabalhou na primeira tradução completa da Bíblia para o idioma inglês, a partir da Vulgata Latina – edição e tradução popular do texto. Acreditava que a Bíblia deveria ser um bem comum de todos os cristãos e escrita na língua nativa das populações. Wycliffe foi condenado à morte no ano de 1415, quando já estava morto havia 31 anos. Seu corpo foi retirado do túmulo, os restos mortais foram queimados e as cinzas, jogadas no rio Swift, no centro da Inglaterra. A tradução da Bíblia, sem autorização prévia, era proibida pela Igreja. A tradução foi apenas uma das muitas questões que o filósofo formulou contra o “modus operandi” da Igreja Católica. Em 1378, escreveu “A Verdade da Sagrada Escritura, com o ponto central de que a Escritura é a revelação completa de Deus e a autoridade final acima da tradição, do direito canônico, dos papas, dos concílios e de todas as coisas de natureza terrena.” Wycliffe questionou, também, a doutrina da transubstanciação – a capacidade de transformar o pão e o vinho no corpo e no sangue de Cristo –, que era (e continua a ser) de caráter doutrinário e indiscutível para o catolicismo. As ideias de John Wycliffe, considerado a "Estrela Matutina da Reforma", inspiraram um movimento de dissidência na Igreja Católica, base para a reforma protestante iniciada por Martinho Lutero, em 1517. A primeira edição da “Bíblia de Wycliffe” foi publicada em 1382, e a segunda, um ano depois de sua morte, em 1385, por seu assistente João Purvey. As cópias da segunda edição foram objeto de grandes queimas públicas nos anos de 1410 e 1413, restando catalogados apenas 300 exemplares em várias línguas, 170 deles em língua inglesa. A “Bíblia de Wycliffe” contém 73 livros, os exatos livros presentes na Bíblia católica – 46 livros do Antigo Testamento e 27 livros do Novo Testamento –, seguindo o cânone oficial estabelecido pela Igreja Romana. As ideias e contestações de Wycliffe rapidamente se espalharam por toda a Europa. As pessoas e os grupos que pregavam a partir da “Bíblia de Wycliffe” eram chamadas, pejorativamente, de “lolardos”, o mesmo que “murmuradores”. Muitos foram queimados pela Inquisição com suas cópias da Bíblia proibida presas em volta do pescoço. O trabalho de Wycliffe abriu caminho para a tradução de William Tyndale (a primeira para o inglês a partir dos textos do hebraico e grego) e para a tradução de Lutero, impressa em 1534, considerado o primeiro best-seller mundial, alcançando a marca de meio milhão de exemplares em três décadas.

João Scortecci