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O "COQUE" DE SARAH NO MUNDO DOS VIVOS

Quando criança - isso nos anos 60 - acreditava em muitas coisas: Papai Noel, Gnomos, Fadas, Bicho Papão, Alma Penada e que Vovó Sarah (Sarah do Carmo Paula, 1894 -1979) já havia nascido de “coque” com um pente-garfo enfiado na cabeça. Hoje - na vida que segue - acreditamos em outras coisas. As verdades cognitivas mudam de referência e as fantasias - boas ou ruins - desaparecem do jogo da vida. O que fica na memória são lembranças quebradas, fragmentos miúdos e sonhos míopes e incompletos. “Arrumá-las” no coração da razão não é simples. As recordações no tempo são frágeis, doloridas e incertas. Amadurecer ou envelhecer - o que chegar primeiro - nos obriga a saber lidar com fios desencapados, arames farpados, cobras peçonhentas e muros com espinhas de peixe. Vovó Sarah - mesmo de cabelos curtos e prateados - nunca abandonou o seu “cocar” na linhagem da memória. Sua estampa - a que sempre me encantou - é o seu retrato guardado. Admiro a beleza das mulheres, que depois dos 50 anos, não pintam os cabelos e os “cuidam” longos, compridos e soltos. Foi na cidade de Baturité, interior do Ceará, numa viagem à casa do Comendador Ananias Arruda, padrinho do meu Pai Luiz, que o pente-garfo da cabeça de Vovó Sarah foi tirado do nó. Desabotoado de seu rosto. Um rio de prata cobriu de luz seus ombros e pescoço. “Vovó, os seus cabelos são longos!” Ela sorriu e os “sacudiu” na sorte da noite. Foi nesse dia de Gnomos, Fadas e Almas Penadas que Vovó Sarah me confidenciou um segredo: “Meu neto, não tenha medo dos mortos. Tenha medo dos vivos!”

21.04.2021