Pesquisar

OTTAVIANO DE FIORE: O GARIBALDI DO LIVRO, HERÓI E DOIS MUNDOS!

Das amizades do livro e da leitura. Conheci o napolitano Ottaviano de Fiore (1931 - 2016), no Ministério da Cultura, em Brasília-DF, quando Conselheiro da CNIC, das Áreas de Humanidades e Integradas, da Lei Federal de Incentivo à Cultura, Lei Rouanet. Ottaviano de Fiore, filho de pai geólogo, veio com a família para o Brasil, em 1937, ainda criança. Tinha 6 anos de idade. Seu pai veio como professor contratado pela Universidade de São Paulo, para fundar o departamento de Geologia e Paleontologia. Foram morar num prédio localizado na Praça da República, próximo ao Colégio Caetano de Campos, na época, lugar nobre da cidade. Ottaviano foi estudante universitário na época da agitação política de luta contra a ditadura militar. Estudou Biologia e Oceanografia, na USP. Trabalhou na Abril Cultural, nos anos 1970, como diretor editorial de fascículos. Foi professor de Teoria Política da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). No governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995 a 2002), ocupou o cargo de Secretário do Livro e Leitura (1995 a 2002), dedicando-se à abertura de bibliotecas por todo o país. O seu trabalho na Secretaria do Livro e Leitura marcou época. Sempre que possível, conversávamos sobre o mercado editorial, o hábito da leitura e a formação de bibliotecas públicas e comunitárias. Aprendi muito com ele, confesso. Ottaviano era um homem simples, inteligente e educado. O Projeto Livros Para Todos, formação de bibliotecas públicas e comunitárias,  do qual sou o coordenador, nasceu da experiência compartilhada no MinC. Eu o chamava de Garibaldi do Livro (Giuseppe Garibaldi, 1807 - 1882), herói de dois mundos. Ele parecia gostar do apelido. Nunca reclamou. No seu depoimento em 2008 para o Projeto Memória Oral da instituição, da Biblioteca Mário de Andrade, declarou: “Eu nasci em Nápoles, por acidente, em 1931. Meu pai estava lá, minha mãe estava lá também. E meu pai era um geólogo - eles eram sicilianos - e meu pai estava estudando o vulcão, o Vesúvio, daí eu ter nascido lá, na beira do Vesúvio.” Nos últimos anos, depois que deixou o governo, trabalhou no Museu da Língua Portuguesa, como coordenador acadêmico, comprometido com a divulgação e aperfeiçoamento de bibliotecas. Coordenou, também, o programa “São Paulo: Um Estado de Leitores”, lançado em 2003. Em Brasília, no início dos anos 2000, vez ou outra, conversávamos sobre sua amizade com FHC, os acontecimentos políticos dos anos de chumbo e sobre o 30º Congresso da UNE - União Nacional dos Estudantes, evento clandestino, de outubro de 1968, em Ibiúna (SP), durante a ditadura militar. O encontro reuniu mais de mil estudantes para discutir resistência e redemocratização do país. O movimento foi interrompido pela Força Pública e pelo Dops - Departamento de Ordem Política e Social, com a prisão de centenas de líderes, marco na história da luta estudantil brasileira, conhecido como a "Queda de Ibiúna". Ottaviano estava lá. Ele seu amigo FHC. Papo rico, interessante, sem fim. Nosso derradeiro encontro deu-se na calçada do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Despedimo-nos, assim: Disse-lhe: “Abraço, chefe''. Ele, carinhosamente, respondeu: “Bom te ver, Scortecci!”. Ottaviano de Fiore, o Garibaldi do livro, heróis de dois mundos, morreu  pouco tempo depois, aos 75 anos de idade, no dia 15 de março de 2006. Dizia sempre: "A biblioteca foi uma espécie de pátria para muita gente!”. Guardo a máxima, até hoje, no coração. E, sempre que possível, em cursos e palestras sobre o livro, faço questão de registrar: "A biblioteca é uma espécie de pátria para muita gente”. E eu faço parte dela!

João Scortecci