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ANTES DA HORA NÃO VALE MORRER

No início dos anos 1980, o economista Eugênio Gudin (Eugênio Gudin Filho, 1886 - 1986), era, até então, no meu entendimento, apenas o nome do diretório acadêmico da Faculdade de Ciências Econômicas, Contábeis e Administrativas da Universidade Mackenzie. Nada mais que isso. O Google ainda não existia (criado, bem depois, no ano de 1998) e as enciclopédias da época, as disponíveis, Barsa, Delta-Larousse e outras, não gostavam muito de publicar biografias de gente viva, mesmo tratando de pessoas conhecidas, populares e famosas. Um risco! É o que diziam, na época. O mesmo acontece - até hoje - com o problema que é homenagear pessoas em vida. Tudo pode acontecer! Eugênio Gudin - considerado um economista liberal - viveu 100 anos e três meses. Foi ministro da Fazenda entre setembro de 1954 e abril de 1955, durante o governo de Café Filho (João Fernandes Campos Café Filho, 1899 - 1970) e diretor-geral da “Great Western of Brazil Railway”, por quase trinta anos. Em 1944, o então ministro da Educação, Gustavo Capanema Filho (1900 - 1985), designou Gudin para redigir o Projeto de Lei que institucionalizou o curso de economia no Brasil. Nesse mesmo ano - 1944 - foi escolhido delegado brasileiro na Conferência Monetária Internacional, em Bretton Woods, nos Estados Unidos, que decidiu pela criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (IBRD), instituição ligada à ONU com o objetivo de promover o desenvolvimento econômico e social. Em 1983, uma emissora de TV, em cadeia nacional, erroneamente, noticiou a sua morte. A notícia era falsa! A emissora pediu desculpas, horas depois, mas já era tarde. A notícia espalhou-se, rapidamente. Professor Gudin viveu, ainda, mais três anos e alguns meses, batendo a incrível marca dos 100 anos. Chico Anysio, Renato Aragão, Silvio Santos, Gugu Liberato, Ratinho, Vanderlei Luxemburgo e outros, também passaram pelo constrangimento de morrerem antes da hora. Comigo aconteceu uma única vez e a experiência, confesso, não foi nada agradável. Interessante? Talvez. No dia 22 de março de 2013, uma sexta-feira, no melhor dos meus 53 anos de idade, atendi dezenas de ligações na editora perguntando sobre o local do meu velório, do quê eu havia morrido, etc. Infarto? Acidente de carro? Perguntaram. Passei o dia - ao telefone - dizendo que estava “vivíssimo da silva”. As duras penas, descobri que quem havia morrido, de fato, havia sido o escritor, jornalista e acadêmico João de Scantimburgo (João de Scantimburgo Filho, 1915 - 2013). Caos total! O que eu aprendi - de inútil - com o mal-entendido: desmentir algo, mesmo em tempos de Internet e redes sociais, dá muito trabalho. “Ué, você não morreu?” Mas, o pior, aconteceu no sábado, na manhã do dia seguinte, da minha - pseudo - morte. Uma mulher - até hoje não identificada - ligou na minha residência e disse: “Já foi tarde!” Depois, desligou o telefone. Isso, talvez, explique a minha vontade de continuar vivendo, desbragadamente. Aqui com os meus ossos: antes da hora não vale morrer!   


João Scortecci