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NAVIO NA GARRAFA DO RIO DO ANZOL

Nasci na boca do rio do anzol, que, feroz e afoito, afogava-se - dia e noite - na imensidão do mar das garrafas. Escrevi o “bilhete” à mão. Dois versos de amor, uma graça de dor e uma despedida de adeus. Tapei a garrafa com rolha de cortiça e nadei junto, lado a lado com ela, até o encontro das águas. Impossível ir adiante, vencer o vento do destino e a própria correnteza das almas. Exausto: abandonamo-nos à deriva! O poema na garrafa ficou lá, depois acolá e no olho: distante, mais distante, até desaparecer no seu próprio fim. Inglória não sabe do poema “torto” que escrevi e nem do amor ácido depositado na garrafa. Inglória não é “mulher” da boca do rio do anzol. Não traga cachaça, não cospe e não mastiga língua de boi. Inglória não é dor do dia - das tardes ingênuas - e nem das noites cruas do corpo. Inglória é do barro da criação divina - das fantasias do sopro - e do outro lado das águas. Inglória é espírito! Inglória não sabe pecar safadezas, chorar por qualquer coisa, brincar de beijo e abraço, morder ferrolhos e, pasmem, nunca viu de perto o mar de sal nos seus pés. Inglória, feroz e afoita, veio de um sonho amargo, quase pesadelo, veio de folha de caderno rasgado, do nada e do vazio de todas as coisas. Inglória veio - frágil e volátil - e ficou no sono. E eu dormi inteiro. Acordei - ainda adormecido - nas águas do rio do anzol. A garrafa se foi – perdeu-se, perdidamente! Talvez navio, talvez náufrago, talvez fada, duende ou bruxa. Dois versos de amor, uma graça de dor e uma despedida de adeus.

31.12.2021