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NAVEGANDO NOS GALHOS DA GOIABEIRA

Na infância dos anos 1960, o navio pirata era no dorso de uma goiabeira, que ficava no quintal da casa da vovó Sarah do Carmo Paula, em Fortaleza, no Ceará. Quem já “navegou” nos galhos verdes de uma goiabeira sabe que a nau balança com o perigo do vento e enverga suas ondas, igual tempestade no mar. Todo menino - um dia qualquer - sonhou em ser bombeiro, motoqueiro rodoviário, mocinho pistoleiro com estrela de aço no peito, astronauta do espaço e pirata do mar. Já enterrei tesouros no céu, roubei beijos da lua, apaguei incêndios no coração, amarrei laços na onça do mato, joguei peteca no silêncio, brinquei de careta, pulei riscado no chão, rabisquei versos na areia do sol e viajei - perdido em asas - no túnel do tempo. No quintal da casa da vovó Sarah tinha de tudo que é fruta: seriguela, romã, figo, ata, mamão, coco, cajá, graviola e um imenso pé de goiaba. Meu pai - sabendo o quanto curioso era o seu pirata caçula, provocou-me: “você sabe onde se esconde o bicho da goiaba quando não é tempo de goiaba?” Hoje lendo sobre “código de conduta” dos piratas do mar encontrei algo que me derrubou do galho da goiabeira: “O homem que fica para trás é deixado para trás.” Desconhecia tal conduta covarde do código dos piratas. Decepção! Nunca mais quero brincar de pirata do mar. Meu pai escondeu de mim - durante anos - o segredo do esconderijo do bicho da goiaba. Um dia ele me contou. Lembro-me que foi no dia que desci do galho da goiabeira e parti para morar em São Paulo, com 16 anos incompletos. Vez por outra me lembro do segredo de pai relevado no dia do seu abraço de despedida: “Filho, cuidado com as moscas piratas que tentam pousar na sua vida”.

20.08.2021