CRUZ E SOUSA, FRITZ MULLER, CHARLES DARWIN, CATULO E SUAS LÉSBIAS

O poeta catarinense Cruz e Sousa (João da Cruz e Sousa, 1861-1898) morreu jovem, de tuberculose, com 36 anos de idade. Com a alcunha de Dante Negro ou Cisne Negro, foi um dos precursores do simbolismo no Brasil. Segundo o professor, sociólogo e crítico literário Antonio Candido (1918-2017), Cruz e Sousa foi o "único escritor eminente de pura raça negra na literatura brasileira, onde são numerosos os mestiços." Filho de escravos alforriados recebeu desde pequeno uma educação refinada de seu ex-senhor, o marechal Guilherme Xavier de Sousa - de quem adotou o nome de família, Sousa. Aprendeu francês, latim e grego, além de ter sido discípulo do teuto-brasileiro naturalista, botânico e professor Fritz Müller (Johann Friedrich Theodor Müller, 1882-1897) com quem aprendeu Matemática e Ciências Naturais. Müller foi um pioneiro no apoio factual à teoria da evolução de Charles Darwin e exerceu grande influência sobre Cruz e Sousa. Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca. “Broquéis” é o seu livro de estreia (1893) e “Lésbia” o seu poema mais marcante: “Cróton selvagem, tinhorão lascivo, planta mortal, carnívora, sangrenta, da tua carne báquica rebenta a vermelha explosão de um sangue vivo. Nesse lábio mordente e convulsivo, ri, ri, risadas de expressão violenta o Amor, trágico e triste, e passa, lenta, a morte, o espasmo gélido, aflitivo... Lésbia nervosa, fascinante e doente, cruel e demoníaca serpente das flamejantes atrações do gozo. Dos teus seios acídulos, amargos, fluem capros aromas e os letargos, os ópios de um luar tuberculose.”

Lésbia: “falsum nomen” atribuído por Caio Valério Catulo (poeta romano), que tinha nela uma espécie de inspiração romântica para seus versos.

19.03.2021