DOM HELDER CÂMARA, GAMÃO E O PUTA-QUE-PARIU

Morei de 1961 a 1972 na Av. D. Manoel I, 1086, em Fortaleza, Ceará, na mesma rua e a poucos quarteirões do Seminário da Prainha (instituição católica de formação eclesiástica da Arquidiocese de Fortaleza, que serve a diversas dioceses, ordens e congregações religiosas para a formação de padres, religiosos, religiosas e leigos). O bispo católico, arcebispo emérito de Olinda e Recife Dom Hélder Câmara (Hélder Pessoa Câmara, 1909-1999) foi aluno - onde se ordenou Padre - isso nos anos 30 - e amigo dos meus avós paternos João Batista de Paula (O Batista da Light) e Sarah do Carmo Paula. Dom Hélder Câmara foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e grande defensor dos direitos humanos durante a ditadura militar no Brasil. Pregava uma Igreja simples, voltada para os pobres, e a não violência. Por sua atuação, recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais e por quatro vezes indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Vez por outra - no final das tardes - o religioso visitava a Vila Santa Teresinha (quatro casas da Família Paula, que juntas tomavam meio quarteirão). Dom Hélder Câmara era um apreciador do Gamão (jogo de tabuleiro para dois jogadores no qual os adversários movem suas peças em sentidos contrários, à medida em que jogam os dados e estes determinam quantas "casas" serão avançadas, sendo vitorioso aquele que conseguir retirar todas as peças primeiro). Jogava com meu avô João Batista e quase sempre com minha avó Sarah. Faziam isso duas ou três vezes por semana quando o religioso saía do Seminário da Prainha (foto) e meu avô retornava da Ceará Tramway, Light & Power Co, onde era Superintendente Geral. Dom Hélder Câmara jogava e quase sempre ganhava. Era hábil e esperto! O problema era quando perdia feio. Não se conformava e nunca aceitava a derrota. “Puta Que Pariu! Puta Que Pariu!” E - segundo contava minha Avó Sarah - por diversas vezes chegou a atirar o tabuleiro do gamão no chão. Dom Hélder Câmara? “Sim. Ele mesmo”. Vovó você está mentindo? “Não. Juro pelos olhos de Santa Teresinha.” Detalhe insignificante: só jogava com as pedras brancas. Sorte é sorte!

09.02.2021