DIA D NA HORA H, SINEIRO, DOIS RELÓRIOS E O COLÉGIO CEARENSE

Dia D na hora H. Eu e minhas manias. Quando menino - aluno de ginásio no colégio Cearense Sagrado Coração de Jesus, em Fortaleza - fui convocado para ser o novo “sineiro” da escola. Já cuidava do hasteamento da bandeira nacional e outros engodos. Uma honraria para poucos! Eu? “Você mesmo!” "Vai substituir o TORRES, que vai deixar o colégio e morar no sul." O “pinguelão” jogador de speed ball? “Ele mesmo!” Sei. “Você é alto, forte, mora perto da escola e ninguém - de cabeça ajuizada - vai mexer com você.” Palavras “proféticas” do diretor do colégio, o Irmão Marista Luiz Marques. E assim foi. Quantas “badaladas” por dia? “Dez ou doze, depende.” Sei. “Entrada, saída do dia, entrada e saída nos intervalos, e mais duas badaladas - entrada e saída - para o recreio.” Sei. Cheguei em casa e anunciei a nova: Vou ser o novo “sineiro” do colégio. “O que você aprontou desta vez?” Eu? Nada. Juro. “Isso está parecendo castigo.” Mãe, eu vou precisar de um relógio novo. “E o SEIKO que você ganhou do seu Pai?”. Quebrou. No meu primeiro dia de “sineiro” usei dois relógios. Um em cada pulso. “Dois relógios?” Pontualidade é tudo, respondi. Irmão Luiz Marques me olhou nos olhos e disse: “Não vai aprontar!” Juro. “E os sapatos?” O que têm eles? “Um preto e o outro marrom?” Sou daltônico e quando “nervoso” vejo tudo trocado. “Está nervoso agora?” Depende. “Depende de quê? Durante os anos 70 e 71 fui o sineiro oficial do Colégio Cearense usando dois relógios - um em cada pulso - e sapatos vulcabrás, um preto e outro marrom. “João, que marmota é essa?” Promessa, respondi. “E não estão zoando com você?” Não mais. Já resolvi o assunto. “Posso saber como?” Dei um rabo de chão no pentelho - e ele, no susto - caiu de boca, quebrou um dente e cortou a língua. Acontece. De volta ao Ceará, já morando em São Paulo, visitei o Colégio Cearense e reencontrei, no pátio, o queridíssimo Irmão Luiz Marques. Olá irmão! “Você aqui?” Sim, respondi. “Vejo que não usa mais sapatos trocados.” Não. “E nem dois relógios.” “Parabéns!” E as manias do dia?” Depende. “Depende do quê?” Das provocações da hora. “Posso saber qual a mania da vez?” Melhor não.

17.01.2021