EU SOU UM LIVRO - JOÃO SCORTECCI

Eu sou um livro. Um exemplar raro do romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, do escritor Machado (Joaquim Maria Machado de Assis) que nasceu no dia 21 de junho de 1839 e morreu em 29 de setembro de 1908, considerado o maior nome da literatura brasileira. Fui impresso no ano de 1881, nas Oficinas da Tipografia Nacional, na Cidade do Rio de Janeiro. Tenho pouco mais de 139 anos, muitas páginas e uma belíssima encadernação de luxo. Uma unanimidade em primeira edição com autógrafo e dedicatória em bico de pena. Estou catalogado e em destaque no acervo da biblioteca de um importante bibliófilo apaixonado por livros. Tive sorte, muita sorte na sua escolha dele por mim. Não sei se vocês sabem, somos nós “livros” que escolhemos leitores. Antes de ganhar notoriedade e referência de obra passei um longo tempo em um sebo ruim, jogado literalmente às traças. Já escapei de incêndio, de vazamento de água e de uma ameaça de reciclagem. Minha morte seria um crime! Felizmente escapei com a sorte de poucos. Um livro precisa de zelo! Sofremos com destruição por fanatismo religioso e político, roubo, falsificação, reciclagem e contaminação por fungos e bactérias. Minhas páginas estão amareladas. É o desgaste natural causado pelos excessos de exposição à luz, umidade, temperatura inadequada e inimigos predadores como cupins, traças e roedores. Gostamos de ficar em prateleiras em local afastado das paredes, ordenados verticalmente, sem acúmulo excessivo. Ventilação e limpeza são indispensáveis para nossa sobrevivência. Não gostamos de muito calor e aperto. 22° C está perfeito. Não precisa também exagerar! Temperatura excessiva faz com que as fibras de celulose percam as suas propriedades de elasticidade, flexibilidade e resistência. A umidade relativa do ar não deve ultrapassar 60%. Iluminação ambiental de 50 watts é a correta. A luz artificial mais utilizada é a fluorescente. Nunca utilizar luz ultravioleta. Os segredos e mistérios de um livro estão no seu conteúdo. Quem lê viaja! Dia 29 de outubro é o meu Dia Nacional. Foi escolhido por ser a data de aniversário da fundação da Biblioteca Nacional, que nasceu com a transferência da Real Biblioteca portuguesa para o Brasil. Um dia de todos os dias e de todos nós. Não se ama um livro vez por outra e muito menos com lapsos de memória. Eu sou um livro. E você?

16.08.2020