Abracadabra. Pé de cabra

Abracadabra. Pé de cabra. Eu abro enquanto você arromba! Era assim que brincávamos quando criança. Qual das diabruras? As proibidas, as vigiadas, as seladas e lacradas, as amarradas no cerol e as segredadas com sangue. Éramos paixão e fascínio pelo ilusionismo das sombras, pelos truques, pelas mágicas de cartas, pelo feitiço, pelo magnetismo do toque, pelo ocultismo dos mistérios e pelo deslumbramento - avassalador - das porções. Isso mata! O que você colocou no caldo? Rabo de rato, língua de calango, caca de nariz, titica de galinha, unha com micose e grude. Muito grude! Tiro e queda. Abracadabra. Pé de cabra. Eu abro e você arromba! Pronto. Agora estamos invisíveis. Ninguém agora nos vê. Somos fantasmas! E mais: imortais e indestrutíveis. Qual o destino? Afanar os suspiros da vovó Sarah. Tirados do forno. Alguém sabe do esconderijo da lata? Eu. Então conta. Não. O que eu ganho? Patife. Um suspiro de quebra, depois da divisão. Feito. A lata está escondida em cima do guarda-roupa do vovô Batista. Atrás da mala de couro. Safadinha! Ela viu você espiando? Não. Juro. Nem desconfia. Dá o pé e sobe. Um. Dois e três. Vai. Pega a lata. Rápido. Antes que o feitiço do caldo acabe ou nos mate de nó nas tripas. Abracadabra!

24.06.2020