Algo no ar do dia de ontem

Algo no ar do dia de ontem. No dia de hoje: tudo igual, que se repete. E volta - quase - do mesmo. No escuro da porta do quarto o vazio de janela entreaberta de luz. Lamparinas no fio de cordas e brisa. Cabide no chão, camisa suja de sopa de palmito e dor inglória. Façanhas no rosto da face: observar o avesso do espelho. E seus pêndulos! Suaves. É o que arde e coça no ventre. Nudez. Sapato preto, sem meias. Descalço em ladrilhos de pano. Hora do mijo da manhã. Urinar-me. Suor azedo e incolor, quase cheiro de pele. Abajur francês na prateleira de aço: lâmpada cega e queimada no cristal. O que se esconde na rua de fora? Barulho confuso. Lua de Vênus ou cadela no cio? Miúdas, gritarias. Dentro da noite: eu espero. O sol sabe de mim. Espero.

08.05.2020