Meu Saudoso pai Luiz Gonzaga

Meu saudoso pai Luiz Gonzaga adorava contar história - quase sempre engraçadas - e manter vivo o bom humor típico das famílias nordestinas. Dizia ele: a vida é desleal e desumana! Jogava no ar e se calava. Vara de espera. Aguardava pelo curioso. Qual a razão da vida ser de fato desleal e desumana? Ele então - com habilidade ímpar que deus lhe deu - explicava detalhadamente a razão da vida ser tão “desleal e desumana”. Contava a história ao gosto do freguês. O mote principal era mais ou menos assim: nós mortais todos os dias acordamos cheios de fé, de entusiasmo e coragem. Somos guerreiros! Acordamos fortes e cheios de energia, dispostos a enfrentar os desafios do dia. Alguns rezam e outros acendem velas. Cada um com a sua proteção ou amuleto da sorte. No bolso - justificava - um preciso canivete suíço. No caminho do destino, já na primeira esquina da sorte, o inesperado. Surpresa? Não. Encontro com o seu mais temido e feroz inimigo. Suspense. Pausa. Então ele perguntava: E o que ele carrega firme na mão direita? O quê? Insistia, devorando olhos. Outro silêncio. Quase medo. Arregalava os olhos e gritava: um imenso e afiado facão. Moral da história: não importa o quanto você esteja preparado para os desafios da vida. Lembre-se: o seu inimigo sempre estará mais armado que você. E como vencê-lo na luta diária pela vida? Gonzaga, na calmaria da fisgada e por fim, no sussurro de segredo revelado, respondia: - Carregue - sempre - o seu canivete suíço do lado esquerdo do peito, junto ao coração.