Falamos com o Escritor, Editor, Gráfico, Livreiro e agora Vice-presidente da ABTG

Falamos com o Escritor, Editor, Gráfico, Livreiro e agora Vice-presidente da ABTG -

João, você, como poeta, escritor, livreiro, gráfico e editor, atua em várias áreas relacionadas ao livro. O que o levou a aumentar esse leque de atividades e colaborar em algumas das mais representativas entidades do setor, a Abigraf e a ABTG?

Tenho participado, há vários anos das atividade da Abigraf – Associação Brasileira da Indústria Gráfica, no GE-DIGI, Grupo Empresarial da Abigraf-SP e na Executiva da Abigraf-SP, como Diretor Setorial Editorial da entidade. Em função do meu desempenho nessas atividades, fui desafiado, e aceitei, a assumir a Vice-Presidência Executiva da ABTG, Associação Brasileira de Tecnologia Gráfica, na próxima gestão, que assume em julho próximo. Sinto que estou maduro e experiente para o importante cargo no setor representativo da comunicação gráfica. A Associação Brasileira de Tecnologia Gráfica é certificada ISO 9001:2008 e uma OSCIP – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público. Tem por objetivo difundir informação técnica, incentivar a pesquisa, introduzir e disseminar tendências e tecnologias no seguimento gráfico nacional através do debate. Sua missão é a de fomentar o desenvolvimento tecnológico da comunicação gráfica.
A missão dessa entidade é fundamental num momento em que percebemos a importância do impresso na cadeia produtiva da informação. Parafraseando o ditado popular “vale o que está impresso”. A comunicação gráfica, e principalmente o impresso, têm uma participação fundamental na credibilização da informação publicada, e é uma ferramenta indispensável no mundo moderno, ganhando cada vez mais relevância.  Espero poder colaborar para o fortalecimento dessa ideia. Estou muito honrado com o convite e motivado por esse desafio.

Você estará lançando em agosto próximo mais um livro. Qual o título?

O livro chama-se Dos Cheiros de Tudo. Memórias do Olfato é o subtítulo que “explica” do que trata a obra. Selecionei 21 cheiros e os apliquei – poeticamente – no dorso da nuca de mulheres. Escrevi o livro depois de assistir ao filme O Perfume. Das mulheres tem sido o perfil da minha poética nos últimos anos, desde o livro anterior, de nome A Maçã que Guardo na Boca. Não é uma continuação. Longe disso. Gosto de pensar tratar-se de um outro momento ou ainda um outro olhar.

É o seu melhor livro?

Tomara que não. Gosto de pensar que o melhor ainda está por vir. Tenho trabalhado em três outros livros. Um infantojuvenil, outro sobre a poética dos “ismos” e um terceiro, na verdade uma adaptação, da obra Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes, para a linguagem nordestina. Respondendo a sua pergunta, gosto do livro Na Linha do Cerol, reminiscências dos anos 60, da minha infância no Ceará. Para a crítica – é o que dizem – O Eu de Mim – Poema ecológico, com o qual ganhei o Prêmio Itajaí, é o melhor. Desconfio sempre.

Vamos conversar sobre suas atividades junto à cadeira produtiva do livro. Você dorme?

Durmo. A qualidade do sono é que não é das melhores. Depois do acidente de bike em 2018, acordo a cada duas horas para pingar um colírio alucinógeno, que me deixa mais agitado ainda. Sou tripolar nível três e com o “aditivo” atravesso paredes. Acordo cedo, antes do galo que acorda as galinhas. Além de Presidente da Scortecci, que me ocupa muito, sou diretor setorial da Abigraf, editor do portal Amigos do Livro, conselheiro de várias entidades do livro e, agora, vice-presidente diretivo da Associação Brasileira de Tecnologia Gráfica. Nas horas ocupadas sou ainda perito técnico, palestrante e consultor editorial e gráfico. O tempo que me sobra costumo pedalar pela cidade de São Paulo e assistir aos jogos de futebol do Fortaleza e do Palmeiras, times do coração.
Meu amor pelos livros é dimensional. Não é fácil ser escritor, editor, gráfico e livreiro: tudo ao mesmo tempo. Eu e meus heterônimos formamos um bom time. Não há disputa entre as partes interessadas.

Como anda o mercado de livros no Brasil depois dos pedidos de recuperação judicial das livrarias Cultura e Saraiva?

Um caos. O negócio do livro atravessa sua maior crise. Em 12 anos, segundo números da FIPE, encolhemos 25%. Existe algo de bom nessa desgraça toda: paramos de “encolher” e o setor resolveu tirar o traseiro da cadeira. O comodismo mata e nos torna “inertes” além da conta. Vejo duas crises: uma sistêmica que assola o país desde 2013 – a tal crise Brasil – e outra pontual e previsível, com os pedidos de recuperação judicial das duas maiores redes do país. A crise não é do livro. As pessoas continuam lendo e apaixonadas por livros. A crise Brasil – essa sim – é preocupante. A economia precisa voltar, o quanto antes, ao círculo virtuoso do crescimento. Sobre a crise no negócio do livro vejo forte movimentação do setor, principalmente por parte das entidades do livro. Isso é muito bom. Alguns pontos são fundamentais para a sua recuperação: busca por um preço justo do produto livro, capaz de remunerar todos os agentes da cadeia produtiva, e descentralização do varejo, através do surgimento de novas livrarias,menores e segmentadas. Acho que o negócio da distribuição de livros através do modelo da consignação precisa ser refundado com novas práticas comerciais, transparência e boa gestão. É o desafio. Esse negócio de “guerra de descontos” não é saudável para o setor. As principais entidades do livro estão atentas e ligadas em busca de uma solução compartilhada para todos os agentes da cadeia. Por fim, cabe aqui dizer, sou favorável à aprovação da lei do preço único, que tramita no Congresso desde 2017.

O que você quis dizer com “uma crise previsível” e mais ainda sobre ser a favor da lei do preço único para os livros?

Previsível. Era um desastre anunciado! As duas redes – Cultura e Saraiva – vinham,  desde 2017, atrasando pagamentos e sufocando o mercado com prazos cada vez maiores. As editoras perderam capital de giro e,infelizmente, muitas acabaram fecharam suas portas. Isso trouxe ao setor o que chamamos de “efeito dominó”,atingindo gráficas, distribuidoras e fornecedores de insumos. Não precisa ser esperto para saber que eram bombas-relógio. As duas redes, juntas, representavam, para a grande maioria, 40% de suas vendas no varejo. Poucas editoras se prepararam para o dia D, diversificando vendas e abrindo novos canais de comercialização, que veio na virada do ano, no melhor das festas, que são as vendas de Natal e de fim de ano. Sobre a lei do preço único, penso na regulação do varejo – importante para o setor, no equilíbrio da cadeia, na diversidade de títulos e na concorrência mais justa entre as redes e as livrarias independentes.

O que você acha que vai acontecer com as duas redes de livrarias?

Vão sobreviver – é o que o mercado aposta. Precisarão ajustar suas estruturas, melhorar a relação com as editoras,ter mais transparência, perseguir a boa gestão e acabar de vez com a prática predatória dos descontos, que nada contribui para a saúde do setor. O mercado editorial foi generoso com elas, aprovando suas propostas de recuperação e fornecendo livros, ininterruptamente. Já tivemos nos últimos anos profecias sobre o fim do livro impresso. Um dia, quem sabe. Quem vai decidir o futuro – sua conveniência ou não – serão os leitores de livros. Até lá, façamos a nossa parte.

Revista Publish / Paulo Addair
17.06.2019