"Do outro" não é a mesma coisa que "Do Bom"

José Mindlin gostava de uma boa “cachaça”. Socialmente bebia uísque. Foi o que me disse em uma viagem de carro que fizemos juntos até Ribeirão Preto, para uma feira literária. Isso ficou gravado na cabeça. Em 1989 - pelo seu amor aos livros - foi escolhido intelectual do ano e merecedor do Prêmio Juca Pato, da UBE. Fabio Lucas, presidente da entidade na época, puxou a fila assinando a lista de 30 nomes para a sua indicação. Fui o segundo. Mindlin foi candidato único e levou a estatueta, merecidamente. No dia da entrega do prêmio, na sede da entidade (Rua 24 de Maio 250, São Paulo/SP) a ideia era servir uísque. Compramos para os convidados uma caixa de Old Eight (doze garrafas) e para o homenageado uma garrafa de Ballantines, oito anos. A guarda da “preciosidade” ficou aos cuidados do Franco, dono do bar que ficava dentro da sede da entidade. O esquema era simples. Na hora H Fábio Lucas chamaria o Franco e diria: Franco, por favor, traga um uísque - do bom - para o Dr. Mindlin. Quando o homenageado chegou - quase em cima da hora - a festa já estava rolando e o Old Eight também. Fábio Lucas então chamou o Franco e pediu: Franco, por favor, traga um uísque - do outro - para o Dr. Mindlin. “Do outro” não é a mesma coisa que “do bom”. A troca deixou o saudoso Franco (que fazia o melhor pastel do pedaço) confuso. Mindlin, educadamente, molhou o bico e fez cara de limão azedo. Baixou o copo e colocou-o de volta na bandeja para espanto de todos: “Melhor não beber agora antes da cerimônia”, disse. Mais tarde, depois do término da solenidade, ficamos sabendo da troca das garrafas. Na verdade Mindlin bicou a opção três de uísque que até então não sabíamos existir no bar do Franco. Era uísque batizado, servido em garrafa de Ballantines, daquelas que nunca acabam. Pobre Mindlin. Logo com ele que tinha em vida o lema de fazer tudo com alegria.